Venezuela, Cuba, Oriente Médio – a desordem do mundo

Gilberto Lopes - 22 Abr 2026

A arquitetura da desordem global revela como sanções econômicas e bloqueios financeiros atuam como mecanismos de castigo coletivo, impedindo a soberania e a normalidade institucional das nações

Dormindo na calçada

 Saio de casa de manhã e encontro-o ao dobrar a esquina. O menino dorme à beira da calçada. Um cobertor vermelho separa-o do chão de cimento. A mãe, enrolada na bandeira da Venezuela, pede ajuda aos carros parados no semáforo. Como esse menino verá o mundo quando acordar no chão da calçada? O que pensará? Não seria de estranhar que tenha sonhado em ter algo para comer. Talvez algo saboroso.

 No dia 1º. de maio do ano passado, Valentina Oropeza publicou, no BBC Mundo, uma entrevista com o economista Omar Zambrano sobre as conclusões do estudo intitulado “Crise econômica e o colapso do acervo de capital humano venezuelano”. Omar Zambrano afirma que o pior da crise foi a hiperinflação. Entre 2015 e 2017, ninguém queria trabalhar porque o salário não valia nada.

Os dados são avassaladores; a desordem, enorme: “A Venezuela perdeu 75% do tamanho de sua economia entre 2013 e 2021. Uma das contrações econômicas mais severas registradas na história moderna. Pelo menos 7,7 milhões de pessoas emigraram na última década”, afirma.

 “A desvalorização dos salários e a onda migratória levaram mais de 4 milhões de pessoas em idade ativa a abandonar o mercado de trabalho, incluindo os trabalhadores mais jovens, mais qualificados e com maior experiência”.

Venezuela – a desordem do mundo

 Será parte desse grupo a família que agora pede ajuda nas ruas de San José? Na entrevista, não há uma única palavra sobre as causas desta desordem. A jornalista também não pergunta. É preciso procurar a informação em outras fontes. Por sorte, elas são abundantes. Quem quiser saber tem à sua disposição todo tipo de informação, das mais diversas fontes.

 “Desde o início, o governo de Hugo Chávez enfrentou ações imperialistas destinadas a destituí-lo. O governo dos Estados Unidos sempre apoiou política e financeiramente as tentativas da direita venezuelana de derrubá-lo, começando pelo golpe de Estado de abril de 2002 e pelo bloqueio empresarial do petróleo que praticamente paralisou o país durante dois meses entre 2002 e 2003”, afirmou o sociólogo venezuelano Edgardo Lander. Chavista no início do processo, hoje está mais próximo da oposição liderada por María Corina Machado.

 Como pode um país ter um desenvolvimento político “normal”, em que cada setor tenha a representação que lhe corresponde, se um setor é subjugado pelas pressões de Washington, enquanto o outro conta com todo seu apoio? É impossível.

 O desequilíbrio que isso gera distorce o cenário político, provocando, como no caso da Venezuela, todo tipo de desordem. Primeiro, a econômica, com suas repercussões dramáticas, incluindo a migração, de que tanto se queixa Donald Trump. Mas também a política. Como se pode pretender a realização de “eleições livres” com um setor submetido às maiores pressões econômicas e políticas, que lhe tornam impossível governar? E se a oposição vence, essa vitória não representa um equilíbrio político interno, mas o resultado do desequilíbrio provocado pela intervenção estrangeira.

 A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela tem sido permanente. Desde o final do século passado, como já vimos. Em 2017, pouco antes de deixar o poder, o presidente Barack Obama renovou a declaração abusiva de que a Venezuela constitui uma “ameaça inusual e extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos”. Posteriormente, Donald Trump, em seu primeiro mandato, ampliou o bloqueio financeiro à Venezuela, estendendo-o para além dos Estados Unidos.

 Em fevereiro de 2021, a relatora especial das Nações Unidas sobre os efeitos das sanções à Venezuela, Alena Douhan, apresentou um relatório detalhado sobre os efeitos dessas medidas:  “As sanções unilaterais impostas cada vez com maior frequência pelos Estados Unidos, pela União Europeia e por outros países agravaram os problemas”, afirma. As receitas do governo “diminuíram 99%, e atualmente o país vive com apenas 1% das receitas anteriores às sanções”.

 Este não é um trabalho sobre a economia venezuelana e não pretende, portanto, debater as diversas interpretações sobre as causas e as origens de seus problemas. Nosso interesse é outro: mostrar a desordem que a intervenção estrangeira – principalmente norte-americana e europeia – provoca na vida dos venezuelanos e no funcionamento das instituições do país.

 Em abril de 2019, Mark Weisbrot e Jeffrey Sachs expuseram, num trabalho sobre “Economic sanctions as collective punishment: the case of Venezuela”, as consequências dessas políticas:  “Constatamos que as sanções infligiram, e seguem infligindo cada vez mais, danos muito graves à vida e à saúde humanas, incluindo uma estimativa de mais de 40 mil mortes entre 2017 e 2018”, afirmaram.

 É impossível imaginar desordem maior. Não é necessário alongar-nos aqui sobre os efeitos desastrosos das sanções na vida política e econômica do país, nem sobre a população venezuelana.

Cuba – a desordem do mundo

 A desordem mais escandalosa na América Latina é a provocada pelo embargo a que Cuba está submetida há mais de 60 anos.

 Outra vez, como se pode pretender um desenvolvimento político “normal” – em que cada força política interna tenha a representação que lhe corresponde – se o governo está submetido a sanções que, em qualquer outro caso, não teriam permitido a nenhum governo da região sobreviver mais do que alguns meses?

 Não foi assim no caso de Cuba. Também não vou discutir aqui se o governo acertou sempre. Mas é evidente que acertou no fundamental, de modo que nem as sanções norte-americanas, nem o fim do mundo soviético, no qual estava profundamente inserido, significaram a queda do governo.

É inútil atribuir isso à repressão. Sabemos muito bem (e os casos latino-americanos são prova disso) que nenhuma repressão, por si só, explica essa resistência. Sugiro que as transformações realizadas são a base da explicação, apesar da desordem monumental que as sanções provocam na vida dos cubanos.

 Em 2024, o governo de Cuba apresentou à Assembleia Geral das Nações Unidas um relatório sobre os efeitos do bloqueio econômico, comercial e financeiro a que está submetida, condenado nesse ano por 187 países, com apenas dois votos a favor: o dos Estados Unidos e o de Israel.

 Só entre março de 2023 e fevereiro de 2024, o bloqueio representou perdas para a ilha de pouco mais de cinco bilhões de dólares. O relatório cubano estima, em dólares correntes, em mais de 164 bilhões os danos causados por mais de seis décadas de sanções. Atualizado, o número é de 1,5 trilhão de dólares. É fácil imaginar a desordem que sanções como essas causam a qualquer economia.

 O resultado é que o país nem sequer é capaz hoje de manter em funcionamento um sistema elétrico indispensável para sua economia, hospitais e escolas, e para que os cubanos possam manter as geladeiras funcionando em suas casas.

 A intervenção estrangeira gera uma desordem extraordinária que torna impossível um desenvolvimento político interno “normal”, que reflita o peso real de cada setor na vida política do país.

 Se a oposição conta com o apoio tão formidável de Washington, como pedir ao governo cubano que jogue como se o campo estivesse nivelado? Como pedir-lhe eleições “livres”, se durante 60 anos o governo nunca conseguiu desenvolver um projeto sem sabotagem externa.

A desordem na América Central

 A história da América Central – talvez com exceção da Costa Rica – é um bom exemplo dos resultados dessas intervenções. Um caso especial é o da Guatemala, onde um golpe de Estado promovido por Washington, em 1954, fortaleceu os militares, desarticulou a vida política do país, marginalizou a população indígena majoritária e interrompeu o desenvolvimento normal de reformas que os proprietários norte-americanos das plantações de banana no país não estavam dispostos a aceitar.

 A desordem provocada por esse golpe repercute até hoje. O ministro das relações exteriores do governo deposto de Jacobo Arbenz, Guillermo Toriello, conta essa história num livro notável, “A batalha da Guatemala”, texto indispensável, mas difícil de conseguir hoje em dia. De qualquer forma, um texto mais recente, do jornalista norte-americano Stephen Kinzer, ex-correspondente do New York Times na América Central (e em muitos outros países), conta essa história em “Bitter Fruit: The Story of the American Coup in Guatemala”, publicado em 2005.

 Stephen Kinzer também escreveu sobre a guerra na Nicarágua – “Blood of Brothers”, publicado em 1991 –, onde a intervenção norte-americana alimentou a guerra contra a revolução sandinista que, além dos milhares de mortos e da desordem provocada nos programas de desenvolvimento do país, acabou por se resolver em eleições nas quais os nicaraguenses foram avisados: se a oposição não ganhasse, os Estados Unidos manteriam a guerra contra um país já exausto e sangrando.

 A oposição venceu, mas a desordem política criada por essa vitória mantém-se até hoje, sem que o país tenha conseguido reencontrar um equilíbrio político, nem um modelo de desenvolvimento adequado. Pelo contrário, como sabemos, hoje imperam as regras severas com as quais o regime de Ortega devorou até seus aliados mais antigos e próximos. Que ordem é essa, que regime pode sobreviver nessas condições?

A desordem causada pelo genocídio de Gaza e pela guerra contra o Irã

 A desordem no mundo tem outras manifestações mais recentes, avassaladoras, com repercussões universais.

 Uma delas é o genocídio de Gaza, herança dramática que lembra o genocídio perpetrado pelos alemães na Segunda Guerra Mundial. É avassaladora a evidência da devastação provocada por Israel, principalmente em Gaza, mas também na Cisjordânia.

 Num artigo sobre a pobreza endêmica em Gaza e na Cisjordânia, publicado em 30 de dezembro de 2004, a BBC afirmava: “As estatísticas de morte, destruição e pobreza não conseguem transmitir o verdadeiro sofrimento da população nos territórios ocupados. Bairros inteiros (…) foram arrasados. Nas nossas escolas, uma geração inteira cresce num ambiente de violência aterradora. A maldição da pobreza endêmica atinge agora dois terços da população”.

 Dito em 2004! O que aconteceu desde então? O relatório de Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas sobre a “Situação dos Direitos Humanos nos Territórios Palestinos”, publicado em outubro passado, mostra a dimensão da desordem causada.

 A tortura estendeu-se muito além das prisões e das salas de interrogatório. “O território palestino ocupado tornou-se um espaço de castigo coletivo”, afirma. Ou seja, num campo de concentração.

A cumplicidade internacional, em particular dos Estados Unidos, contribuiu para o genocídio em Gaza, assinala o relatório. Só o número de mortos na Faixa de Gaza já ultrapassava os 75 mil, consequência da ofensiva militar lançada por Israel há mais de dois anos. À destruição de Gaza, juntou-se o cerco à Cisjordânia, onde os colonos israelenses têm ocupado território, destruído propriedades e assassinado antigos habitantes.

 Em dezembro passado, a imprensa noticiou que crianças palestinas congelavam até a morte nos campos de refugiados, enquanto Israel bloqueava a ajuda humanitária, sem a qual não conseguem sobreviver. Ao restringir a entrada de alimentos, um plano meticuloso do governo israelense implantou a fome nos territórios ocupados desde 1967.

 A desordem imposta no Oriente Médio por Israel e seus aliados é inimaginável. O que se pretende construir sobre essas ruínas? Poderá o mundo seguir desviando o olhar por muito mais tempo? É impossível imaginar a solução de qualquer problema com o genocídio imposto por Israel na Palestina.

 Mas as bombas continuam explodindo. Israel volta a atacar o Líbano. Em 28 de fevereiro, os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. Até hoje continuam as discussões sobre os objetivos dessa guerra, sem que haja clareza sobre quais são.

Escolas e hospitais em ruínas, estreito de Ormuz fechado

 Em meados de abril, foi anunciado um cessar-fogo precário na guerra que os Estados Unidos travam contra o Irã. O New York Times também decidiu fazer uma pausa na cobertura da guerra e dar uma olhada na destruição provocada pelos bombardeamentos no Irã: “Iran’s Schools and Hospitals in Ruins, Times Analysis Shows”, é o título do artigo, publicado em 9 de abril.

 É provável que a escala da devastação seja muito maior do que a estimada pelo New York Times, afirma a nota. A Sociedade do Crescente Vermelho declarou, em 2 de abril, que pelo menos 763 escolas e 316 centros de saúde tinham sido danificados ou destruídos durante a guerra.

 No primeiro dia do ataque, em 28 de fevereiro, a escola primária Shajarah Tayyebeh, na cidade de Minab, no sul do Irã, foi bombardeada. O ataque deixou pelo menos 175 mortos, a maioria crianças. Os militares tinham classificado a escola como um alvo militar, utilizando informações desatualizadas, de pelo menos dez anos antes, afirma o jornal.

 O direito internacional humanitário obriga os comandantes militares a levar em consideração os possíveis danos colaterais a civis e a infraestruturas civis quando planejam um ataque, lembra o New York Times.

 O jornal utilizou imagens aéreas de alta definição para analisar o resultado dos ataques. As imagens foram revelando o caos provocado: centenas de escolas, hospitais e centros de saúde destruídos ou danificados. Centenas de crianças mortas.

 Cerca de metade das escolas e centros de saúde danificados situavam-se em Teerã, uma cidade densamente povoada, onde os bombardeios têm sido intensos.

 Donald Trump prometeu, em determinado momento, enviar o Irã para a “idade da pedra”. No domingo, 19 de abril, com as negociações num impasse, ameaça novamente destruir pontes e centrais elétricas do Irã. Suas forças capturaram um cargueiro de bandeira iraniana no Golfo de Omã. É difícil imaginar um caos maior do que o provocado pelo fechamento do Estreito de Ormuz. A China, particularmente afetada pelo fechamento da via, pediu ao Irã que a reabrisse, mas indicou que a causa do fechamento é a guerra provocada pelos Estados Unidos e por Israel.

Em 1 de abril, o jornal espanhol El país lembrava o caos provocado pela guerra do Iraque em 2003, com o apoio do espanhol José María Aznar e do britânico Tony Blair. “O declínio de Bagdá duas décadas após a guerra, um espelho para Teerã”, afirma o artigo. Um caos semelhante foi provocado pelo assassinato do líder líbio, Muammar Kadhafi, em outubro de 2011.

 Embora não tenham conseguido derrubar o governo iraniano – algo que já se tentara antes da guerra através de protestos populares estimulados pelas dificuldades econômicas criadas no país pelas sanções norte-americanas –, os antecedentes citados mostram as consequências caóticas dessas guerras e sanções.

A necessidade de uma nova ordem

 Parece-me que não devemos fechar este percurso pelo caos sem mencionar o mais recente esforço para criar uma nova ordem internacional, que o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, convocou, sob o lema “Não à guerra”.

 Em 17 e 18 de abril, Pedro Sánchez realizou, em Barcelona, juntamente com os presidentes do Brasil, México, Colômbia, Uruguai, África do Sul e uma lista de representantes de diversos países e organizações políticas, uma Cúpula Global Progressista.

 Tem particular relevância para a América Latina, onde Donald Trump proclamou a pretensão de um controle renovado sobre seu “quintal”. A América Latina nunca deixou de ser isso, submetida à pressão permanente de Washington e à submissão da “quinta coluna” em que se baseia essa dominação.

 Mas, se nunca deixou de ser isso, também nunca deixou de haver resistências. A cúpula de Barcelona revela o quão persistentes e renovadas elas são. O mundo mudou muito para que as pretensões anunciadas em 1823 de submeter a América Latina possam ser renovadas sem problemas hoje.

 “Ninguém deve ter vergonha de ser de esquerda”, afirmou Lula em Barcelona. Donald Trump está jogando um jogo muito perigoso, pensando que pode ditar suas próprias regras. Ou, como disse a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum: o México tem como princípios constitucionais “o respeito pela autodeterminação dos povos, a não intervenção, a resolução pacífica de controvérsias, a rejeição ao uso da força, a igualdade jurídica dos estados, a necessidade da cooperação internacional para o desenvolvimento, o respeito pelos direitos humanos, a luta permanente pela paz”.

 “Os Estados Unidos estão utilizando armas criadas para combater o narcotráfico como instrumento de pressão contra os que não compartilham suas políticas na América Latina”, afirmou, por sua vez, o presidente colombiano, Gustavo Petro. “Qual é nossa resposta?”, perguntou-se ele: rebelião. É isto que acontecerá se o governo norte-americano não rever o caos provocado por suas políticas em relação à América Latina, assegurou.

 Dessa forma, aquele menino, adormecido na calçada em San José, poderá  acordar e descobrir outro mundo, em que tenha uma cama onde dormir.

 

[Artigo tirado do sitio web brasileiro aterraéredonda, do 21 de abril de 2026]