O sol da meia-noite palestino: terá o futuro chegado?

G.N. Nithya -

O significado histórico do momento que estamos vivendo está precisamente nessa negação da catástrofe que o gerou: a unificação de um corpo social provocada pela luta por libertação nacional. Um corpo social constituído não apenas por palestinos, mas também por povos indígenas, por jovens e por trabalhadores e trabalhadoras de todo o mundo

 Enquanto escrevo essa carta, meus amigos na Palestina estão vendo seus irmãos e irmãs, filhos e filhas, pais e mães serem arrasados pelo bombardeio de caças F-16 israelenses. Nos últimos dias, eles testemunharam o linchamento e o derramamento de sangue nas ruas da Palestina histórica, esse território que hoje é chamado de Israel e que os palestinos também conhecem como الداخل, “o interior”. Eles ouviram o terror de pessoas agredidas dentro de suas próprias casas pelo exército israelense, respirando gás lacrimogêneo dentro no espaço sagrado da Mesquita Al-Aqsa, despejados de suas casas em Jerusalém e assassinados em bloqueios na Cisjordânia. Suportando os horrores de uma interminável Nakba.

 E ainda assim, em 12 de maio, no Eid al-Fitr, data que marca o fim do mês sagrado do Ramadan, pessoas queridas postaram mensagens no Facebook saudando o novo ano. Um amigo escreveu: “a memória do dia da Nakba [15 de maio] será o início da vitória e da libertação… Sejamos um pouco pacientes agora para podermos rir muito. Feliz ano novo”. “Feliz ano novo… os braços da resistência, do orgulho e da dignidade são fortes”, escreveu outro companheiro. E um terceiro: “este Eid nos trouxe de volta à vida… viva a resistência”.

 Nesta semana de Eid, quero homenagear meus amigos na Palestina pelo que eles ensinam há tempos a mim e outros. Em “Carta de Gaza” [http://nalinhadavida.blogspot.com/2014/07/carta-de-gaza.html], do escritor e revolucionário palestino Ghassan Kanafani, um jovem escreve a seu amigo, Mustafa, para explicar o porquê decidiu permanecer em Gaza, quebrando a promessa de começar uma nova vida nos Estados Unidos. Nesta Gaza “fechada como o revestimento interno de uma concha de caracol arremessada pelas ondas da praia visguenta e arenosa ao lado do matadouro. Essa Gaza estava mais apertada do que a mente de um adormecido nas dores de um terrível pesadelo”. Com a amputação da perna de sua sobrinha de 13 anos – os presentes sádicos de Israel lançados pelo céu não discriminam ninguém – ele descobre que a “longa, longa estrada para Safad”, uma cidade ocupada na Alta Galileia, começa em sua casa, em Gaza. Ele conclui a carta para seu amigo: “eu não irei até você. Mas você pode retornar! Volte, para aprender, com a perna amputada de Nádia no alto da coxa, o que é a vida e quanto vale a existência”.

 Será que o tempo de retorno chegou? Estaremos nós vivendo o momento de um sonho que parecia possível? É difícil escrever essas palavras enquanto recebemos as tenebrosas imagens vindas de Gaza: famílias inteiras devastadas pelo contínuo bombardeio de Israel nos últimos dias. Ainda assim, enquanto as bombas são despejadas no enclave, nós ouvimos a explosão ecoar ao redor do globo.

 No ar, aparece a possibilidade de um despertar de consciência política, uma força moral da resistência vinda de todos os cantos do mundo, gritando pelo fim dessa brutalidade. Os ecos do Dia da Terra (Yawm al-Ard) [https://www.middleeastmonitor.com/20180330-palestine-land-day-remembered/] reverberaram em nossas cabeças, enquanto palestinos se uniam em luta em toda a Palestina histórica. O “interior se levantou” (الداخل ينتفض), dizia uma legenda do Facebook, abaixo de uma montagem fotográfica das revoltas atuais em al-Lydd, Akka, Haifa, Umm al-Fahm, Kalanswa, e outras cidades e vilarejos. As principais cidades da Cisjordânia estão em chamas, de Nablus e Ramallah a Jenin. E também, claro, Jerusalém, onde os despejos no bairro Sheikh Jarrah [https://www.aljazeera.com/news/2021/5/11/sheikh-jarrah-residents-speak-out-on-israels-forced-expulsions] e a profanação da Mesquita de Al-Aqsa [https://www.youtube.com/watch?v=P1pt40ZelgM] cruzaram a “linha vermelha” que instigou a resistência generalizada.

 Manifestantes da Jordânia e do Líbano marcharam até a fronteira, tentando colocar seus pés na Palestina [https://www.independent.co.uk/news/world/middle-east/israel-borders-palestinians-lebanon-jordan-b1847630.html]. “Um momento histórico inacreditável”, dizia um post no Fórum Palestino, um grupo de Facebook. O significado dos atos de solidariedade nessa semana na cidade de Karameh, na Jordânia, não se esgota em nosso tempo: a Batalha de Karameh, em 1968 [https://www.midnightsunmag.ca/friends-in-palestine-has-the-future-arrived/], foi um ponto de virada para a emergência de um movimento nacional para a autodeterminação palestina. Há pessoas falando sobre o começo de uma terceira Intifada [https://www.contretemps.eu/intifada-palestine/] e a possibilidade de dar um fim ao projeto de ocupação colonial genocida do sionismo ainda em nossa geração. Eu estou escrevendo esta carta em 15 de maio, dia da Nakba [https://www.aljazeera.com/news/2021/5/15/israeli-forces-wound-dozens-of-palestinians-at-nakba-day-marches]. Apesar dos anseios dos líderes sionistas de que os velhos morreriam e os jovens não se lembrariam, os jovens não se esqueceram! Em recente artigo para o Contratemps, jornal francês de esquerda radical, Salwa Ibrahim nos lembra com eloquência que a nova geração não esqueceu porque o projeto sionista nunca nos deixou esquecer [https://www.contretemps.eu/intifada-palestine/]. “Não é uma coincidência tudo ter começado em Sheik Jarrah. Sheik Jarrah é um espelho reduzido da longa Nakba palestina. Sheik Jarrah é a outra Lifta [https://electronicintifada.net/content/ethnic-cleansing-101-case-lifta-village/5493], a outra Dier Yassin [https://www.middleeastmonitor.com/20180409-remembering-the-massacre-at-deir-yassin/], a outra Haifa [https://electronicintifada.net/content/sunbathing-crime-scene-israeli-resort-covers-massacre/14574]. É o eco distante da colonização e expulsão de árabes de cidades e vilas desde 1948”.

 A Palestina é uma ferida aberta, um símbolo doloroso (e não apenas um símbolo) da perversa lógica colonial e imperial. Palestinos, os racializados “arcaicos”, os outros “bárbaros” que podem ser dizimados, arrancados de suas terras, exilados, desumanizados. A Nakba foi e é o profundo desmembramento de um povo. Mas também foi e é sua negação: o duradouro legado da luta palestina é a construção de uma vontade coletiva de resistir, como nos diz Edward Said. O significado histórico do momento que estamos vivendo está precisamente nessa negação da catástrofe que o gerou: a unificação de um corpo social provocada pela luta por libertação nacional. Um corpo social constituído não apenas por palestinos, mas também por povos indígenas, por jovens e por trabalhadores e trabalhadoras de todo o mundo que reconhecem suas próprias histórias na condição e resistência palestinas. Essa não é apenas uma causa particular, mas também uma expressão fenomenal da lógica de opressão que opera em todo o mundo. Entendida dessa maneira, a solidariedade não é um ato de caridade, mas a afirmação de que nossas lutas são uma só. Mumia Abu-Jamal, militante do movimento negro norte-americano preso desde 1981, dá voz poética a essa ideia [https://hoodcommunist.org/2021/05/06/what-is-palestine-to-the-u-s/]:

 A Palestina é pequena e frágil quando pensamos nos Estados Unidos e seus aliados. Sua dor, seu sofrimento, sua humilhação não incomodam o império.

 Ainda assim, seu tratamento cruel e injusto nas mãos dos sionistas comove os corações de milhões de pessoas por todo o mundo, na Europa, na África, na Ásia e nas Américas.

 De suas perdas terríveis, nascem os frutos da solidariedade que nos unem, enquanto seres humanos e enquanto oprimidos.

 À medida que as crueldades do imperialismo aumentam, provocando raiva e angústia, a força da solidariedade também crescem… 

 Se não fosse isso, como explicar a explosão de protestos em solidariedade à luta palestina durante essa semana? Como interpretar as ações dos trabalhadores portuários da Unione Sindacale di Base de Livorno, na Itália, que se recusaram a carregar armas destinadas ao Estado de Israel? [https://www.leftvoice.org/italian-dockers-stop-arms-shipment-to-israel-in-solidarity-with-palestine/]. A Confederacion Intersindical Galega (CIG), da Galiza, no Estado Espanhol, declarou: “aqui, a revolta contra o que o povo palestino está sofrendo é enorme. (…) A cada hora que passa, mais cidades aderem [às manifestações que estamos organizando]”.

 Ainda não está claro onde isso nos levará, mas este Eid e esta Nakba, 73 anos depois da tragédia de 1948, nos lembrma do valor de nossa existência.

 Eid mubarak, meus amigos. Na esperança de que dias melhores virão.

 

[Artigo tirado do sitio web Esquerda online, do 27 de maio de 2021]

 

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