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Guerra económica

Jorge Cadima - 19 Set 2022

No plano militar os EUA/UE/NATO alimentam a guerra com armas e dinheiro e os ucranianos pagam com as suas vidas. Noutro plano, alimentam a guerra económica com sanções e bloqueios e os povos pagam com os seus empregos, rendimentos, nível de vida. São duas faces da mesma moeda

A confrontação da NATO com a Rússia não é apenas militar. Em Março, o ministro da Economia e Finanças da França tornou claro o objectivo mais geral dos centros imperialistas, proclamando uma «guerra económica e financeira total» contra a Rússia para «colapsar a sua economia» (Reuters, 1.3.22). A revista Economist (27.8.22) confirma: «um outro combate está a ser travado – um conflito económico duma ferocidade e extensão não vistas desde os anos 1940, com os países ocidentais a tentarem pôr de joelhos a economia de 1,8 triliões de dólares da Rússia através dum novo arsenal de sanções.»

 Mas a revista, que também tem os olhos postos na China, confessa: «Preocupantemente, a guerra de sanções não está até agora a correr como esperado.» O FMI prevê que o PIB russo encolha apenas 6% este ano, «muito aquém dos 15% que muitos esperavam em Março». A revista queixa-se do resto do planeta, afirmando que «a principal falha é que os embargos [..] não estão a ser implementados por mais de 100 países a que corresponde 40% do PIB mundial».

 Ou seja, boa parte do planeta não se quer suicidar para defender a hegemonia planetária das potências imperialistas euro-americanas, que já não corresponde sequer à realidade económica. Mas a UE quer. O Economist escreve que o ricochete das «sanções do inferno» estão a atingir «a Europa, onde a crise energética pode provocar uma recessão». Ainda o Economist (3.9.22) escreve: «O sofrimento vai ser dramático e irá alastrar […]. Vai aumentar a pressão sobre a economia que já se sente com os aumentos das taxas de juro pelo Banco Central Europeu para combater a inflação. Muitos economistas prevêem uma recessão nos próximos meses».

 A real dimensão da catástrofe em curso na Europa começa a tornar-se clara neste final de Verão. A revista Business Standard (3.9.22), noticiando um estudo ligado às empresas do Reino Unido, titula: «60% das fábricas britânicas em risco de falência com a explosão das facturas de energia» e acrescenta: «quase metade dos produtores tiveram um aumento de mais de 100% nas contas de electricidade no último ano». A extensa lista de empresas que já anunciaram o encerramento ou redimensionamento das suas operações cresce todos os dias. Está em curso um autêntico processo de desindustrialização da União Europeia com pesadas consequências sociais, além de económicas e políticas.

 O economista Ricardo Cabral explica em dois artigos (Público, 29.8 e 5.9), que a explosão de preços da energia não resulta apenas das sanções que a UE impôs às importações de energia russa, mas é também o reflexo da «desregulamentação do mercado da electricidade» decretado pela UE desde Outubro de 2021, que alimenta a espiral especulativa. A Comissão Europeia parece acordar agora para a gravidade dos seus actos. Tal como o governo português, irão propagandear anúncios de ajudas. Mas não é difícil prever que serão tostões para os povos e milhares de milhões para os grandes grupos económicos.

 No plano militar os EUA/UE/NATO alimentam a guerra com armas e dinheiro e os ucranianos pagam com as suas vidas. Noutro plano, alimentam a guerra económica com sanções e bloqueios e os povos pagam com os seus empregos, rendimentos, nível de vida. São duas faces da mesma moeda. O capitalismo decadente dos nossos dias nada mais tem para oferecer do que guerra e miséria.

 

[Artigo tirado do sitio web portugués ODiario.info, do 15 de setembro de 2022]