Guerra e Paz, século XXI

Daniel Vaz de Carvalho - 13 Feb 2026

A terceira guerra mundial que os belicistas europeus parecem desejar não vai acontecer, nem a curto nem a médio prazo – quanto ao longo prazo, convém que se pense nisso desde já... Por agora seria bom lerem o que a Rússia estipulou acerca da sua segurança e utilização de armas nucleares e também a Nova Doutrina de Segurança dos EUA procurando adaptar-se às realidades atuais reconhecendo a existência do mundo multipolar, com três potências dominantes: os EUA, a China, a Rússia – a Europa é praticamente ignorada

1– Segurança ou desconfiança

 O mundo vive uma crescente insegurança económica, social, bélica. Os EUA são confrontados com um mundo multipolar não tendo capacidade de sustentar a sua hegemonia. Uma nova doutrina de segurança dos EUA, define o que considera ser "sua posse", determinando o que esses países podem ou não ter tanto em políticas internas como externas. A Rússia por seu lado estabeleceu os casos em que ameaças à sua integridade terão uma resposta de âmbito nuclear. A China, com aparente tranquilidade, exibe o seu peso demográfico, a capacidade industrial, militar, tecnológica, a eficiência do controlo estatal.

 Na Europa a lógica fundamental das relações internacionais foi há muito esquecida. De Gaulle, seguindo Richelieu, disse que "em relações internacionais não há ideologias há interesses". As lideranças europeias defendem o imperialismo, mas não gostam do Trump. Não é o imperialista que queriam.

 Trump trata-os com desprezo, mas "comentadores" sentem-se felizes e contentes aplaudindo a queda do "ditador Maduro", impulsionando a guerra contra o Irão. Que vantagem isto traz para os povos europeus não dizem. Os EUA violaram o direito internacional, mas Maduro era um tirano e não se podem derrubar tiranos seguindo o direito internacional! Desta ou de formas mais subtis comentadores e "europeístas convictos" alinham com o império, deslumbrando-se com as suas ações mesmo de pirataria.

 "Passou a haver uma superpotência (dizia um "comentador") que tem os meios para exercer o seu poder nos quatro cantos do universo (?!!). O Irão foi bombardeado (em 2025) e não aconteceu nada (?!). Nem a Rússia nem a China intervieram, não têm os meios nem capacidade de mobilização. É imperialismo, mas não é hipócrita." (!!) Este entusiasmo parvo passou-lhes com o caso da Gronelândia...

 Os líderes europeus geopoliticamente tornaram-se inúteis. Em vez de apoiarem os esforços para acabar com a guerra na Ucrânia e estabelecerem relações de segurança e cooperação com a Rússia (que as propôs em 2021!) minaram negociações prolongando o conflito. Trump excluí-os das negociações tripartidas em Abu Dhabi.

 Estes fracassados políticos gostam sobretudo da tagarelice em reuniões para entreter os media, disfarçando o descrédito nos seus próprios países e o desastre das suas políticas externas. Perfeitamente integrado na burocracia vigente na UE o sr. Costa, presidente do Conselho Europeu, excede-se na vacuidade europeia: "A Ucrânia terá garantias de segurança política e juridicamente vinculativas. (?) A Ucrânia tem de estar na melhor posição possível (!!) para que a sua segurança seja garantida, antes, durante e depois de qualquer cessar-fogo".

 Acham que com os Estados Unidos diretamente no conflito na Ucrânia a Rússia seria definitivamente derrotada. A Rússia respondeu-lhes com um Orestnik em Lviv, cidade próxima da fronteira com a Polónia, sobre instalações subterrâneas onde a UE tinha armazenado o gás de que tanto necessita.

 O império pretensamente global e vassalos consideram que têm o direito de decidir como o resto do mundo deve funcionar. Qualquer país que não aceite este ditame torna-se um inimigo a submeter. Esta situação agrava conflitos regionais aumentando a insegurança e desconfiança global, arriscando um conflito militar direto com a Rússia e com a China. Aquele conceito torna a diplomacia um meio não para obter consensos, mas para iludir interlocutores e ganhar tempo. Os crentes do "atlantismo" não concebem que os EUA possam ser limitados pelo direito internacional e tenham de cumprir compromissos assumidos.

 Porém, o império já não enfrenta nações desprotegidas. Depara com um conjunto de nações que estabelecem parcerias estratégicas como Rússia, China, RPDC, Bielorrússia, Irão. Os EUA, e Israel, foram incapazes de dominarem os Houthis. A guerra de contra o Irão em junho de 2025, teve de cessar dada a evidente incapacidade de Israel e os riscos que corria mesmo com a intervenção dos EUA. O problema para os EUA no Médio Oriente é que Israel nada lhe rende e custa caro.

 A ordem baseada nas "regras" em função dos interesses ocidentais colapsou. O imperialismo perde a batalha pelo domínio global, porque vai contra as realidades e ignora interesses alheios. As tresloucadas tentativas de Trump, instalou a desconfiança mesmo entre aliados. O governo mundial que a gente de Davos, Bruxelas, Washington, imagina não existe: o mundo move-se na direção oposta, procura desenvolver-se sem exploração neocolonial.

 O objetivo de infligir uma “derrota estratégica” à Rússia permanece, principalmente para os neocons e seus aliados europeus, embora possa representar uma catástrofe para a Europa. Sucessivas tentativas de promover a condenação da Rússia falharam. A Rússia alarga as relações junto do Sul Global, que ignorou as sanções ocidentais. Os laços com o Vietname e a RPDC são reforçados através do intercâmbio comercial, tecnológico, militar. Em junho os ministros da defesa dos 10 membros da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) reuniram-se em Qingdao, China, estando também presentes a Rússia, Índia, Irão, Paquistão, procurando garantir uma “segurança indivisível na Eurásia.

 Em África, uma onda de sentimento anti-imperialista difunde-se. Os governos do Níger e do Chade, exigiram que os EUA retirassem o seu pessoal militar. O Níger pretende especialistas russos para treinar as suas forças de segurança. A Rússia opera no Mali, Congo, República Centro-Africana, Zimbabué e outros países. A China tem uma presença ativa em todos os 54 países do continente. Nem os Estados Unidos nem a UE têm uma estratégia coerente, perdendo influência.

A multipolaridade deveria ser um tema central dos partidos que se assumem de esquerda. É estranho que personagens que se reclamam desta área adotem as posições da UE/NATO. Só na paz o desenvolvimento, a justiça social, a não discriminação, o progresso podem ser alcançados. Como a coerência na luta por estes valores não foi assumida, o vírus do imperialismo e da extrema-direita atacou as sociedades como uma grave doença. Claro que tem cura, mas é preciso lutar por isso.

2 – A guerra económica

 Uma guerra económica está em curso. Para a vencer é necessário dispor dos meios, capacidades, estratégias, mais adequadas e eficientes. Dos protagonistas desta guerra, os EUA e a Europa (UE/NATO) estão particularmente mal apetrechados.

 Ao dizer-se que os objetivos dos EUA "agora" são dinheiro e poder a todo custo (sempre foram...) escamoteia-se que o império está em crise de poder e dinheiro. Grande parte do mundo distancia-se dos EUA, a desdolarização é uma realidade e novos corredores comerciais organizam-se sob a égide da China e da Rússia tornando os países menos vulneráveis à intimidação através do dólar e de sanções.

 A História mostra que os impérios entram em declínio, e mesmo desaparecem, mais por razões económicas que por razões militares. Para manter a hegemonia, só nos últimos seis anos o governo federal endividou-se 2 milhões de milhões de dólares por ano, 5,5 mil milhões por dia! Uma situação insustentável e uma economia fictícia.

 Como Emmanuel Todd destacou o PIB dos EUA é uma ilusão, devendo ser substituído por um PIR (produto interno real ou realista), esvaziando-o de todas as atividades inúteis, não produtivas ou mesmo prejudiciais. O PIB seria assim cortado para metade.

 Efetivamente, a financeirização neoliberal levou a que as atividades produtivas foram abandonadas a favor obtenção de lucros sem produção real, acentuando declínio económico. O desemprego real é de 14,7 milhões, com 28,5 milhões trabalhando com horários incompletos; o emprego industrial representa apenas 7,7% da força de trabalho. Os propagandistas liberais festejam o declínio sindical e a precariedade como "reformas laborais", na realidade declínio social. Há cerca de 2 milhões de presos, o país com mais presos em termos absolutos. O número de mortes pela polícia em 2023 foi de 1274 pessoas, ano em que os tiroteios em massa foram média 1,6 por dia.

 Com 38,6 milhões de milhões de dólares de dívida federal (124,3% do PIB), pagam 1 milhão de milhões de dólares de juros por ano. Trump quer obrigar o FED a reduzir as taxas de juro, entrando em confronto com os defensores da fé nos "mercados financeiros". A dívida total (incluindo empresas e famílias) é de 106,3 milhões de milhões. Os serviços públicos lutam com falta de dinheiro, as infraestruturas estão degradadas. Estas as verdadeiras causas da aparente loucura de Trump com total desprezo pelo direito internacional e pelos próprios aliados.

 Para que o dólar – alicerce do império – mantenha a sua posição internacional, o império faz guerras, "revoluções coloridas", interfere onde quer que seja. A contradição é o excesso de dólares que isto consome. As guerras que o império fez para manter o seu domínio custaram desde 2001, mais de 8 milhões de milhões de dólares.

 Os EUA não dispõem de uma estratégia adequada para vencer a guerra económica: o império funciona prioritariamente para uma minoria de oligarcas. Os 15 mais ricos detêm 2,1 milhões de milhões de dólares; os 10 primeiros 1,6 milhão de milhões, uma riqueza que representa sobretudo o acréscimo da exploração interna e nos países dependentes.

 Um dos dilemas que o imperialismo enfrenta é que o mundo multipolar reduziu o seu campo de exploração, levando-o como recurso a saquear os aliados. São tratados como vassalos disponíveis para serem explorados, as oligarquias não se opõem, apenas querem manter as aparências.

 A aplicação de tarifas pelos EUA aos países da UE, um dito "acordo comercial" de 15%, além dos 50% sobre aço e alumínio anteriormente em vigor, tem o significado de aplicação de sanções. Com este acordo, a UE comprará 750 mil milhões de dólares em GNL e petróleo dos EUA em três anos, e investirá 600 mil milhões nos EUA (?!), prosseguindo a deslocalização de empresas para os EUA beneficiando de energia barata e um mercado protegido. É o resultado de prescindirem da energia russa, importando dos EUA mais cara e de logística exigente. Isto resume a inteligência das lideranças europeias.

 Com Taiwan os EUA fecham acordo com o objetivo de atrair 40% do fornecimento de chips de Taiwan que se compromete-se a investir 250 mil milhões de dólares nos EUA em produção de semicondutores, IA e energia. A Coreia do Sul deve pagar as despesas militares que os EUA têm despendido no país, sendo avançado 5,5 mil milhões de dólares.

 Na UE por mais que o neoliberalismo tenha querido transformar a especulação em riqueza real, as absurdas regras orçamentais, a supervisão para garantir políticas federalistas neoliberais e economias privatizadas, tornam os países incapazes de realizarem os investimentos necessários ao desenvolvimento e às necessidades sociais. Nenhuma militarização da UE alterará isto. Os países dispõem de poucos recursos naturais, especialmente energéticos, e o que tem é caro. Os delírios russofóbicos levaram à consequente perda de competitividade e desindustrialização.

 As lideranças centram-se prioritariamente na guerra e ir enganado as pessoas à custa do seu nível e condições de vida. As diatribes anti imigrantes vão também servindo de camuflagem. Por muitas reuniões que façam sobre a Ucrânia, Rússia, China, Irão, na Europa não há nem capacidade económica, nem poder militar, nem influência para alcançar nenhum dos objetivos que apregoam.

Os povos estão à margem e nada disto é discutido nas eleições. Após anos de desindustrialização, incompetência, decisões desastrosas e servilismo atlantista, querem que os países se preparem para um cenário de economia de guerra, sem terem nenhum plano, previsão de investimentos e cronograma, num "cenário" que poderia levar a concretizar uma década de intenso esforço económico e humano.

 Para manter o corrupto clã de Kiev e o seu bando de neonazis "o tempo que for preciso" a UE deu 170 mil milhões de euros. Tudo o que conseguiram foi tornar a Ucrânia o país mais pobre da Europa, privado de metade da população, de capacidade energética, de quase toda a sua indústria, sem condições de se manter como Estado independente, enquanto as mortes se acumulam numa guerra perdida. O plano de financiar as necessidades militares e orçamentais da Ucrânia nos próximos dois anos, 135,7 mil milhões de euros, vai aumentar o endividamento já em níveis críticos. A alternativa seria a emissão de moeda o que o BCE não permite e levaria ao aumento da inflação: estagflação.

 A situação de estagnação e falências na Alemanha, França, Itália, RU, definem a fragilidade económica europeia, bem como o endividamento das principais economias. A Alemanha aumentou a dívida pública para 70,4% do PIB; a França 127,6%; a Itália 150,8%; o RU 113,3%. O principal exportador europeu, a Alemanha, perdeu competitividade, as suas exportações para os EUA caíram 16% no terceiro trimestre de 2025; as exportações para a China têm vindo a diminuir há anos; 41% das empresas industriais planeiam reduzir o pessoal; estão previstas 30 000 falência em 2026, contra 24 000 em 2025. As sanções russofóbicas foram economicamente suicidas para a Europa: os países da UE perderam cerca de 48 mil milhões de euros em 2025 relativamente a 2021, em receitas de exportação para a Rússia.

 Na guerra económica os EUA dispõem de armas poderosas aliadas ao dólar: FMI, BM, SWIFT, sanções ilegais que aplicam indiscriminadamente a países que não lhes agradem. Contudo a eficácia destas armas económicas e financeiras perde-se quando os povos visados se organizam internamente e se aliam fora dos sistemas ocidentais. Além disto, a aplicação de sanções pelos EUA ao limitarem o comércio externo em dólares fragilizam o respetivo poder.

 A guerra económica do ocidente encontra pela frente organizações como os BRICS (37% da produção económica global e elevada disponibilidade em matérias primas) Organização de Cooperação de Xangai (OCX), União Económica Euroasiática (UEEA), ASEAN, que progressivamente se afastam do dólar e desenvolvem processos de integração global, com base no consenso e equilíbrio de interesses.

 A Rússia lidera os planos para um novo sistema de liquidação de pagamentos alternativo ao SWIFT, "uma nova arquitetura financeira que impulsiona a desdolarização, uma agência de notação de crédito dos BRICS e as bases para uma ordem financeira global alternativa com o Novo Banco de Desenvolvimento fundamental para o financiamento de trocas comerciais.

 A miopia política do império e vassalos alardeava o afundamento da Rússia incapaz de resistir à "bomba atómica das sanções". Era nada entender de como a Rússia funciona. Concretizou um eficiente programa de substituição de importações, diversificou o comércio externo, colocou os principais recursos naturais e empresas estratégicas no sector estatal, tornando-se a 4ª maior economia do mundo em PPC.

 A dívida pública e externa da Rússia é 25,3% e 12,6% do PIB, respetivamente. O déficit orçamental da Rússia é de 1,7% do PIB, EUA 5,8%. Com a subida do ouro [NR], a Rússia ganhou 216 mil milhões de dólares, detendo em ouro 326,5 mil milhões de dólares. O FMI considerou o rublo a moeda com melhor desempenho em 2025.

 A Rússia é agora uma das principais potências mundiais tanto económica como militar, juntamente com a China. A Rússia realiza “fóruns económicos” com a participação dos BRICS e parceiros, OCX, UEEA, países africanos, árabes, com milhares de convidados de 140 países, evidenciando uma mudança no cenário económico mundial em que a liderança pertence mais ao ocidente.

 As exportações da China aumentaram 5,9% relativamente a 2024, totalizando 330,3 mil milhões de dólares. A China é o maior parceiro comercial de mais de 120 países, incluindo quase toda a Ásia. Os EUA são o principal parceiro comercial de menos de 60 países, principalmente na Europa e América Latina. Para mostrarem a sua submissão ao império, a Leyen e o Costa fazem ameaças à China. A China respondeu-lhes aumentando as tarifas sobre produtos lácteos da UE de 21,9% para 42,7%.

 Dos dez portos comerciais mais movimentados, sete estão na China os demais na Coreia do Sul e em Singapura. Os EUA, produzem menos de 12% da produção global de bens industriais, dependendo de fábricas asiáticas, mesmo para a eletrónica militar. A quota dos EUA das reservas cambiais globais caiu de cerca de 71% em 1999 para cerca de 58% atualmente.

 A África apesar das suas imensas riquezas naturais é o continente mais pobre e um exemplo gritante das consequências do imperialismo e neocolonialismo a que a Europa tenta agarrar-se apelando ao poder dos EUA, pondo de lado as enfáticas declarações de direito internacional e direitos humanos.

 O modelo ocidental de desenvolvimento subordina os objetivos públicos ao lucro privado aumentando a pobreza e a desigualdade, tanto dentro de cada país quanto entre os vários países. O desafio que se coloca aos povos é conseguirem governos que combatam injustificadas desigualdades, eliminem os benefício fiscais aos ultra-ricos, transformem o crédito numa função pública, baseado numa moeda soberana, financiando o desenvolvimento económico e social, em vez de ser dominado pelos interesses da oligarquia financeira pró-imperialista.

3 – Guerra Psicológica

 A batalha psicológica é extremamente importante quer para mobilização interna quer para limitar o âmbito dos apoios que o adversário possa ter. Nesta guerra o ocidente está particularmente bem preparado e experiente. Baseia-se sobretudo na falsificação dos acontecimentos e deturpação das ideias. Não sendo propriamente ideológica, tem subjacente a ideologia de um modo de vida ocidental, procurando captar camadas populacionais para um determinado modelo de "modernidade", consumismo, lógicas e objetivos.

 Quando os EUA decidem que um governo não se submete aos seus critérios, a assimilação daqueles valores torna-se uma arma, procurando enfraquecer energias internas, perder noções de desenvolvimento independente, semear a desunião, a desigualdade, o separatismo.

 Organizações ligadas à CIA como a USAID, a NED, o IRI ou a Open Society Foundation de George Soros, em colaboração com serviços secretos ocidentais e outras ONG, treinam redes de jovens e camadas marginais a quem são dados objetivos baseados na violência e ódio, fornecendo-lhes competências e estratégias na organização de protestos e manifestações para mudanças de regime e "revoluções coloridas". Por detrás disto correm milhares de milhões de dólares e muita corrupção como evidenciado no Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) – criado em janeiro de 2025, extinto em novembro.

 O imperialismo potencia os problemas fragilizando os governos que quer eliminar. Aproveita erros na condução económica, interesses das oligarquias locais, camadas seduzidas pelas imagens hollywoodescas de certa forma de viver. Neste meio, as “revoluções coloridas” seguem os processos de captar e formar potenciais lideres carismáticos e grupos ativistas seduzidos pelas políticas do globalismo neoliberal lideradas pelos EUA. Preparados e financiados aproveitam um momento de descontentamento para desencadear distúrbios violentos que façam o governo cair ou ceder.

 Os métodos são agora mais conhecidos e as tentativas de "revoluções coloridas" têm-se saldado por fracassos, apesar dos milhões investidos. Assim aconteceu na Geórgia, no Myamar, na China (Hong-Kong, Uigures, Tibete), no Irão. No caso do Irão foi desmascarada a interferência da CIA e da Mossad. A violência armada orquestrada do exterior foi paralisada pelo bloqueio do Starlink.

Disse John Pilger em Silenciando os cordeiros: como funciona a propaganda: Os Estados Unidos derrubaram ou tentaram derrubar mais de 50 governos, a maioria democracias. Interferiu em eleições democráticas em 30 países. Lançou bombas sobre 30 países, a maioria deles pobres e indefesos; tentou o homicídio de líderes de 50 países, reprimiu os movimentos de libertação em 20. Desta carnificina em grande parte não relatada e não reconhecida, os responsáveis continuam a dominar a política ocidental.

 Possuem as estruturas de desinformação, uso da retórica, distorção da linguagem, muito persuasivos, mas na verdade um pacote de mentiras. Afeganistão, Palestina, Iraque, Líbia, Iémene e agora Ucrânia. Tudo baseado em mentiras. O Iraque com armas de destruição em massa que não existiram. A Líbia por um massacre em Benghazi que não aconteceu. O Afeganistão uma guerra de vingança para o 11/Set, que não tinha nada a ver com o povo do Afeganistão.

 As audiências ocidentais são mantidas na ignorância, desde a "promessa" de James Baker a Gorbachev que a NATO não iria expandir-se para além da Alemanha, ao golpe Maidan em 2014, aos acordos de Minsk, propostas de paz da Rússia em 2021, acordos com a Ucrânia em 2022. O objetivo não era fazer acordos, era, como confirmou o secretário de Estado da Defesa dos EUA, Lloyd Austin: destruir a Federação Russa.

 Para a guerra psicológica o Congresso dos EUA destinou US$500 milhões para espalhar notícias negativas sobre a China, a maior parte para a USAGM um serviço estatal que supervisiona a Voz da América, a Radio Free Europe e a Radio Free Asia, gerindo a propaganda pró-americana.

 A dita sociedade de informação procede a uma lavagem cerebral insidiosa. William Colby, ex-diretor da CIA disse que "a CIA controla todos os que têm importância nos principais media". Afirmações de ex-agentes vão no mesmo sentido. Um controlo realizado no essencial por seis grandes empresas: NBC, FOX, Dysney, Viacom, Time Warner (CNN), CBS.

 Não se deve acreditar em nada que os grandes media dizem sobre a Ucrânia, a Venezuela ou o Irão. "Existe uma enorme campanha de desinformação em curso que faz tudo o que pode para retratar os russos de forma negativa, para argumentar que a sua economia está a entrar em colapso, que os ucranianos estão a sair-se surpreendentemente bem. A realidade conta uma história diferente" (prof. John Mearsheimer).

 Os "comentadores" devem repetir como verdade absoluta o que dizem os media de referência dos EUA, como o Financial Times, New York Times, Wall Street Journal. A questão da Gronelândia têm-nos baralhado, mas isso passa-lhes...

 Um país que defenda a sua soberania não aceitando os EUA como suseranos, passa automaticamente a "regime", ficando sujeito às ações de "mudança de regime". Não importa que nos EUA e UE cada vez mais as liberdades democráticas sejam cerceadas por razões de "segurança" contra designados inimigos. A perceção dada é que Putin é um criminoso, enquanto o que Israel faz em Gaza passa sem uma sanção e com referências mais ou menos indiferentes.

Jornalistas da BBC foram proibidos de usar "sequestrado" em relação a Maduro, substituído por "capturado" e "apreendido", é esta a terminologia generalizada. A opinião pública ignora a repressão e as fraudes eleitorais com interferência da UE, na Moldávia e na Roménia para garantir que fossem eleitos protagonistas russofóbicos.

 Apesar de todo o controlo, a realidade impõe-se. A terminologia do império unipolar esgotou-se, comentadores já evitam usa-la para não se tornarem demasiado ridículos. É o caso da chamada “ordem internacional baseada em regras”, estabelecidas e alteradas conforme os interesses dos EUA, ignorando o direito internacional e a ONU, exigindo que a sua liderança seja seguida.

 Por muito que a propaganda se esforce, a "globalização" neoliberal acabou: o mundo dividiu-se em blocos com regras diferentes, não existindo uma "comunidade internacional" que siga as imposições do ocidente. O "direito internacional" é violado pela aplicação de sanções que representam sofrimento para as populações dos países mais fracos, tratados à margem da ONU como cidades cercadas.

 A prosápia dos "direitos humanos" morre no apoio a Israel e ao seu "direito de defesa" bombardeando países vizinhos, permitindo o horror absoluto do campo de extermínio de Gaza, contra crianças, mulheres e idosos, sem alimentos, vivendo no medo e angústia, sendo destruídos hospitais, infraestruturas, poços de água, escolas, mesquitas, universidades.

 O Conselho Europeu, do sr. A. Costa, recusou-se a mencionar Israel nas conclusões sobre o cessar fogo em Gaza, uma “tentativa vergonhosa” de justificar um genocídio, condenar bombardeamentos que aniquilaram famílias inteiras ou o bloqueio de ajuda humanitária, simplesmente: “deplora a quebra do cessar-fogo em Gaza e a rejeição por parte do Hamas da entrega dos reféns restantes”.

 Os critérios do império, os seus atos de agressão e terrorismo estão excluídos da crítica. Atos que possam ir contra o que consideram os seus interesses globais são apresentados com extrema severidade, requerendo "autodefesa contra futuros ataques", justificando todos os atropelos subsequentes.

 A propaganda está a destruir as sociedades ocidentais, colocou-se à margem da verdade, afastando as populações dos objetivos progressistas, debilitando a luta pela paz. A “psicose da guerra permanente" é fomentada, gerando instabilidade e degradação das condições sociais, apenas favorecendo os fabricantes de armas.

4 – Acerca da 3ª Guerra Mundial

 Aquilo que os povos mais desejam é ter paz, mas isto afasta-se cada vez mais do seu horizonte. A UE quer transformar-se numa associação militar. A Leyen o seus comissários falam nisto como prioridade, passando por cima de todos os tratados e objetivos fundacionais. Ao que parece os media ainda não repararam nisso.

 Os três mais importantes focos de potenciais confrontos militares implicam o ocidente em confrontos com a Rússia, o Irão, a China. Embora uma guerra direta contra a Rússia levasse rapidamente a uma Terceira Guerra Mundial isto não impede os belicistas de o considerarem como lógico e necessário, dizendo que Putin só conhece a linguagem da força.

 Os incentivos à guerra propalados por valentões nos media vêm de quem aplaudiu, justificou, ficou estarrecido pela exibição de força dos EUA/NATO contra países fracos, da Líbia ao Iraque e Afeganistão, destruiram a Jugoslávia, tentaram na Rússia através da Chechénia. Têm sido cúmplices no genocídio de Gaza, ficam em silêncio quando os EUA e Israel bombardeiam o Irão". (Prof. Jeffrey Sachs)

 Na UE, segurando o pendão dos neocons dos EUA, os cânticos guerreiros começaram com o triunfalismo de uma Rússia derrotada. Mas os planos da NATO de derrotar a Rússia na Ucrânia e liquidar a parceria estratégica Rússia-China falharam, o que ajuda a explicar Trump. Agora os ronins europeus agitam-se, ora querem lutar contra a Rússia, contra a China, até contra os EUA de Trump, ora se lamentam de serem geopoliticamente ignorados e dos EUA lhes roubarem a Gronelândia.

 É sabido que "só os idiotas é que se lamentam", porque nada são capazes de prever. Agora até de Zelensky ouvem ralhetes, que os reduz à sua insignificância, apesar de lhe darem mais 90 mil milhões e centenas de grupos geradores de eletricidade. Ele acaba por ter razão, atendendo ao que lhe prometeram para cancelar as negociações em abril de 2022... A Leyen, sem ter mandato para isso, apressou-se a dizer que lhe ia ser dado mais dinheiro e entrar para a UE em 2027.

 O que pretendia a UE na Ucrânia? Mais guerra? Centenas de milhares de pessoas morreram desnecessariamente numa guerra perdida. E como pensam sustentar os custos da adesão à UE? Só a reconstrução das infraestruturas custará centenas de milhares de milhões de dólares num Estado falido.

 A resposta de Putin aos belicistas, devia fazê-los pensar: "A Rússia, e somente ela, determinará seu próprio destino". Algo que nenhum país europeu pode dizer. O problema é que a Rússia demonstrou ter meios para falar assim – além de milhares de bombas nucleares.

 Os europeus aceleraram o suicídio industrial vindo do liberalismo, aplicando sanções à Rússia. A dependência económica e militar da Europa é quase total relativamente aos EUA. Os sistemas de comando, controlo, informações, dependem de sistemas de gestão de militar e satélites dos EUA. Metade das frotas de caças da Europa são fabricadas nos EUA. Dependem dos EUA para transporte aéreo estratégico rápido, ou seja, os exércitos poderiam ser destruídos mesmo antes de chegarem a uma frente de combate. Dependeram dos EUA para quase 65% de todas as armas compradas entre 2020-2024. Cada Storm Shadow do RU custa 2,5 milhões de dólares, alcance 550 km, velocidade apenas 0,95 Mash. Foram entregues à Ucrânia 300 unidades, que em nada alteraram o curso da guerra. A Rússia dispõe de capacidades eletrónicas e meios de defesa para os neutralizar.

 A Rússia não foi derrotada, a economia não se afundou, as armas maravilha da NATO estão em sucata. No entanto, Merz insiste: se a Ucrânia cair, Putin não vai parar, enquanto são estudadas provocações contra a Rússia no enclave de Kalinigrado, no Báltico, na Transnístria – região autónoma da Moldava com um contingente russo estacionado.

 A afirmação de Putin sobre o conflito na Ucrânia, "isto não é uma guerra", é talvez a frase mais dramática sobre um potencial conflito europeu: portos aeroportos, bases militares e de logística estariam expostos a ataques de mísseis balísticos mesmo convencionais, contra os quais as defesas são insuficientes – no caso do míssil Oreshnik nenhuma defesa – com consequências devastadoras para uma economia dependente do GNL importado.

 Na Europa estão de cabeça perdida ao verem que Trump não tem intenção de atacar a Rússia, convida Putin para o "Conselho de Paz" de Gaza e coloca a Europa fora das negociações tripartidas sobre a Ucrânia. Habituados à subserviência não entendem as atuais fragilidades militares, geopolíticas, financeiras, dos EUA.

 O império tem pela frente, um poderoso bloco militar em “parceria estratégica” constituído pela China, Rússia, Bielorrússia, RPDC, Irão, além de algumas republicas da Ásia Central. Este bloco mostra que as "regras" dos EUA foram ultrapassadas.

 As guerras dos EUA/NATO para dominar uma série de Estados (Iraque, Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão, Irão, Iémen), não só não resultaram em maior hegemonia dos EUA, como levaram à consolidação de estruturas do Sul Global como os BRICS, a Líbia aproxima-se da Rússia, o Afeganistão da Rússia e da China.

 Os EUA prepararam-se quase exclusivamente para travar guerras imperiais no exterior, perante oponentes fracos, subestimando a defesa do território nacional, não têm defesa contra os Sarmat ou Burevestnik russos que podem atacar pelo sul; o míssil submarino Poseidon pode devastar zonas costeiras ou esquadras navais de porta-aviões; os seus porta-aviões não têm defesa contra vários Kinzhal, as suas bases contra os Kaliber ou Avangard.

 Os testes com mísseis hipersónicos dos EUA mostraram ser muito inferiores aos dos seus adversários. O programa dos caças furtivos F-35 II de quinta geração, está atrasado devido a problemas técnicos e aumento dos custos astronómicos. O programa de submarinos Virgínia está milhares de milhões acima do orçamento e com atrasos de até três anos, segundo auditorias do Congresso. A China expande aceleradamente a sua frota naval, as manobras em redor de Taiwan mostram que o domínio marítimo dos EUA na região foi posto em causa.

 O Irão faz há muito parte de uma lista de países a "eliminar" com tentativas falhadas através de Saddam Hussein, dos curdos, "revoluções coloridas" e Israel. Em junho de 2025, na "guerra dos 12 dias" a infraestrutura nuclear de Teerão foi apenas ligeiramente danificada. Em compensação, Israel esgotou os estoques das principais armas defesa contra mísseis do Irão. Valeu-lhes as entregas dos EUA.

 O confronto militar com o Irão é uma aposta de alto risco. As rotas de energia através do Golfo Pérsico e do Mar Vermelho continuam a ser o ponto frágil de qualquer escalada, gerando uma crise económica global. As tentativas de dominar o Médio Oriente a partir de Israel serão inúteis, apesar da morte de dezenas de milhares de inocentes.

 O mundo em que os EUA achavam poder decidir que leis internacionais e a quem se aplicavam acabou. Os estrategas belicistas assemelham-se aos do Estado Maior nazi, cujos perfeitos planos militares não funcionavam no terreno porque não dispunham dos meios humanos e materiais para tal.

 A terceira guerra mundial que os belicistas europeus parecem desejar não vai acontecer, nem a curto nem a médio prazo – quanto ao longo prazo, convém que se pense nisso desde já... Por agora seria bom lerem o que a Rússia estipulou acerca da sua segurança e utilização de armas nucleares e também a Nova Doutrina de Segurança dos EUA procurando adaptar-se às realidades atuais reconhecendo a existência do mundo multipolar, com três potências dominantes: os EUA, a China, a Rússia – a Europa é praticamente ignorada.

 Isto não significa que o mundo viva em paz. Os confrontos vão prosseguir como se viu e (se verá) no Irão, mas principalmente com a CIA e suas ONG de "revoluções coloridas" e "mudanças de regime" tentando abrir caminho para o Pentágono, apesar das divergências nestas questões.

 Pondo de parte a destruição mútua nuclear, os EUA e NATO estão mal apetrechados para uma guerra convencional perante os principais adversários: quer em termos industriais quer financeiros não têm capacidade de produzir armas suficientes para um esforço de guerra intenso e de longa duração. As limitações no Médio Oriente tornaram-se evidentes em junho e agora. Quanto à Europa não tem capacidade industrial, nem pode manter operações militares intensas que dependem de um fornecimento fiável e abundante de energia.

 Uma das características dos belicistas (os nazis são exemplo) é menosprezarem os problemas logísticos. Que combustível, que matérias-primas e linhas de abastecimento garantidas teria a UE/NATO diretamente em guerra com a Rússia? Note-se que no bloco estratégico China – Rússia – RPDC – Irão, a logística é terrestre.

 Quanto à China, podem os "heróis" do Afeganistão vence-la? Falharam "revoluções coloridas" e insurreições no Tibete, no Xinjiang, em Hong Kong, como derrota-la? Além do crescente potencial militar da China, inclusive nuclear, um ataque dos EUA e aliados teria intransponíveis fragilidades logísticas e de custos.

 Mas vai a China atacar os EUA? Como e para quê? As dificuldades logísticas são da mesma ordem das dos EUA. Vai a Rússia atacar a Europa? Para quê? Nem sequer está interessada no pesadelo financeiro e neonazi de Kiev, que deixa para a UE...

 Como Andrei Martyanov observou, as superpotências têm “apenas duas opções: iniciar a Terceira Guerra Mundial, que terminará com uma troca nuclear, ou encontrar um modus vivendi. Esta é uma conversa para adultos que exclui automaticamente o hospício europeu e as birras infantis do ator carrancudo de Kiev."

 

[Artigo tirado do sitio web Resistir.info, do 29 de xaneiro de 2026]