COP26 – do descrédito a alguma construção

António Abreu -

Os EUA são o segundo maior emissor de gases com efeito de estufa e estiveram durante quatro anos de costas voltadas para o clima, quando o ex-presidente Donald Trump abandonou o Acordo de Paris. O país regressou ao acordo no início deste ano

 Tal como na COP25, nesta COP26 velhas ideias estão a ser traficadas, desconsiderando o esforço dos países em vias de desenvolvimento, das organizações ambientais e a discussão da calendarização do combate ao desastre ecológico e os objectivos e datas das acções que o possam conjurar.

 Uma dessas situações é a luta política conduzida para ajudar a criar a ideia de que se a COP26 fracassar, a responsabilidade é dos políticos que não se teriam entendido.

 Desde que Joe Biden foi eleito no início do ano, passou a fazer guerra à China e Rússia. Isso hoje está presente em múltiplos aspectos das relações internacionais. Biden também aproveita a oportunidade da COP26 para meter veneno.

 Joe Biden, no final do G20 expressou «decepção» com o facto de a Rússia e a China «não terem assumido quaisquer compromissos» para lidar com as alterações climáticas. E que, por isso, as pessoas se sentiriam desapontadas.

 Porém, nem os EUA nem o G20… assumiram compromissos para parar o financiamento a centrais eléctricas a carvão em países pobres e assumiram um vago compromisso de atingir a neutralidade do carbono por volta de meados do século.

 De facto, quer a China, quer a Rússia assumiram compromissos. E trabalharam desde a COP25 de Paris para os cumprir. Existem reflexões produzidas sobre as alterações climáticas sentidas em ambos os países, que determinaram uma série de medidas para as resolver.

 Biden mentiu. Mas os participantes nesta COP26 têm estes relatórios. A RTP e outros media em Portugal não se referiram a eles, enquanto insistem na mistificação e limitam-se a reproduzir sound bites de origens sem credibilidade.

 Quer a China, quer a Rússia têm poderosas delegações nesta conferência, estão a conversar com as outras partes, a prepararem as posições comuns sobre diversas questões para serem assinadas. Isso apesar de nem Xi-Jinping, nem Putin se terem deslocado a Glasgow por razões que foram conhecidas.

 Declaração, de natureza completamente diferente da de Joe Biden, foi a de Xi-Jinping na passada segunda-feira. Quando se trata de desafios globais como as mudanças climáticas, o multilateralismo é a receita certa, disse Xi destacando a importância da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), e seu Acordo de Paris.

 A China, o maior emissor mundial de gases de efeito estufa na actualidade, entregou oficialmente, no passado dia 28, os seus novos compromissos climáticos.

 Na sua nova «Contribuição Determinada em Nível Nacional (NDC, na sigla em inglês)», Pequim compromete-se a alcançar o seu pico de emissões «antes de 2030», e a neutralidade de carbono, «antes de 2060». Estas metas mantêm-se dentro do que já havia sido antecipado pelo presidente Xi Jinping.

 Apresentadas no site da UNFCCC, estas novas contribuições prevêem reduzir a intensidade de carbono (emissões de CO2 em relação ao PIB) em mais de 65% em relação a 2005.

 Na sua anterior NDC, a China comprometia-se a reduzir sua intensidade de carbono entre 60% e 65%, até 2030, e a conseguir seu pico de carbono «por volta de 2030».

 Neste novo contributo, Pequim lembra que os países desenvolvidos devem «assumir as suas responsabilidades históricas e continuar a assumir, com clareza, a redução de emissões».

 A China também se comprometeu a aumentar a participação de combustíveis não fósseis a 25% de seu consumo, contra 20% na sua NDC anterior, em particular com o aumento de sua capacidade instalada de energia solar e eólica para 1,2 bilhão de kW até 2030, assim como com o aumento florestal em 6 mil milhões de metros cúbicos em relação a 2005.

 A nova contribuição da China, responsável por mais de um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa, era, portanto, aguardada com ansiedade antes da COP26. O compromisso chinês era especialmente aguardado, depois do anúncio pela ONU, na segunda-feira, de que os novos compromissos climáticos assumidos nas últimas semanas ainda conduziriam o mundo a um aquecimento «catastrófico» de +2,7°C.

 Não só os EUA mentiram quanto às metas da China, só publicando as suas, englobadas nas do G20, um dia depois (29), da publicação pela ONU das da China (28), e, como tinham feito até então, tentaram traficar a mentira impondo mais um anátema contra este país. Porque não foi ainda permitido à China apresentar uma mensagem do seu presidente em vídeo?

 Quanto à Rússia, Vladimir Putin participa na cimeira de forma virtual, com mensagem que já foi emitida. O país é o quarto maior emissor de gases com efeito de estufa e pretende reduzir as emissões em 79% até 2050 face a 1990. Moscovo procura ainda alcançar a neutralidade carbónica até 2060.

 Putin afirmou no G20 que a participação de fontes de energia neutras em carbono – nuclear, hidroeléctrica, eólica e solar – ultrapassou os 40% na Rússia. Se se contar com o gás natural, que entre os hidrocarbonetos tem a menor pegada de carbono, essa participação seria de 86%. É um dos melhores resultados do mundo.

 (Abro parêntesis para referir que a comunidade internacional pode vir a considerar como não poluentes a energia produzida pelas centrais nucleares e pelo gás natural – este com a pegada menos poluente.)

 Putin sugeriu que a comunidade mundial precisa de testar vários projectos climáticos em termos de seu impacto líquido nas emissões por cada dólar de investimento: «Pode muito bem acontecer que, por exemplo, a conservação das florestas na Rússia ou na América Latina seja mais eficaz do que investir em energias renováveis ​​em algumas nações.»

 Ele acrescentou que a Rússia não apenas reduzirá as emissões de gases de efeito estufa na economia do país, como investirá também em os capturar por meio de projectos de reflorestamento, preservação da natureza e melhoria da eficiência da agricultura.

 A Rússia também sofreu taxas altas de perda de cobertura arbórea em 2020, em grande parte devido a incêndios na Sibéria. A Sibéria sofreu com temperaturas altas em 2020, incomuns para a Primavera e o Verão, provavelmente devido à mudança climática, que ressecou florestas e levou a incêndios intensos. Os incêndios também queimaram turfas ricas em carbono, que estão habitualmente congeladas.

 Além disso, a Rússia foi explícita quanto ao esperar vantagens concretas em troca da cooperação em matéria de mudança climática, inclusive na forma do levantamento de algumas sanções.

 Os EUA são o segundo maior emissor de gases com efeito de estufa e estiveram durante quatro anos de costas voltadas para o clima, quando o ex-presidente Donald Trump abandonou o Acordo de Paris. O país regressou ao acordo no início deste ano, no próprio dia em que o novo presidente, Joe Biden, tomou posse.

 Em Abril, durante uma cimeira sobre o clima, Joe Biden prometeu cortar as emissões de gases de efeito de estufa do país em 53% até 2030 (relativamente aos níveis de 2005) e passar a liderar a luta global contra o aquecimento global. Biden também estipulou como objectivo descarbonizar a economia dos EUA inteiramente até 2050. Aguardam-se ainda os seus compromissos para esta COP26.

 Em 2015, a Índia tinha-se comprometido a cortar a intensidade carbónica em 33% a 35% até 2030 em relação aos níveis de 2005, alcançando uma redução de 24% até 2016. O país também se está a aproximar agora da meta de atingir cerca de 40% da produção de electricidade com base em energia renovável – uma meta colocada até 2030. Aguarda-se a confirmação dos compromissos para esta COP26.

 Quanto à União Europeia, os seus 27 Estados-membros apresentaram em Glasgow cinco novas medidas para combater as alterações climáticas. Entre elas está a redução em 30% e até 2030 das emissões de metano, um dos gases que mais contribui para o aquecimento global; a atribuição de mais mil milhões de euros para a preservação das florestas e o envio de cinco mil milhões até 2027 para os países mais desfavorecidos combaterem as alterações climáticas.

 Mas, estarão os compromissos dos países alinhados com os objectivos a que todos se procuram ajustar? António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), já respondeu a esta questão e é claro: os compromissos dos países «são um caminho para o desastre». Afirmou também que há um «défice de credibilidade e um superavit de confusão sobre as reduções de emissões», com metas e métricas diferentes.

 Apesar dos compromissos assumidos, as concentrações de gases com efeito de estufa atingiram níveis recorde em 2020, mesmo com a desaceleração económica provocada pela pandemia de covid-19, segundo a ONU, que estima que ao atual ritmo de emissões, as temperaturas serão no final do século superiores em 2,7 °C.

 Por isso, além dos mecanismos estabelecidos no Acordo de Paris, anunciou, no primeiro dia da conferência, que iria constituir um grupo de especialistas para propor padrões claros para medir e analisar os compromissos de emissão zero de atores não estatais.

 A forma como os EUA e o Reino Unido declaram ter conseguido «mobilizar mais de 450 instituições financeiras que se comprometeram em deixar de injectar dinheiro nos combustíveis fósseis» é típico de uma mentalidade administrativa que não se compadece com a diversidade de percursos na transição energética de que diferentes países carecem. Atingir a neutralidade carbónica pode ter de passar pelo uso de energias fósseis

 Foi muito positivo o acordo sobre as florestas.

 A agência da ONU para a Alimentação e Agricultura (FAO) estimava em 7/5/2020 que o ritmo de destruição das florestas tenha descido de 7,8 milhões de hectares anuais na década de 1990 para 4,7 milhões de hectares entre 2010 e 2020 por causa da redução da desflorestação em alguns países e o aumento da cobertura florestal em outros.

 Segundo esse relatório da FAO, desde 2010, as maiores perdas aconteceram em África e na América do Sul. Entre 2015 e 2020, o ritmo de desflorestação situou-se nos 10 milhões de hectares por ano, menos dois milhões do que nos cinco anos anteriores. No ano de 2015, perderam-se 98 milhões de hectares devido a incêndios, sobretudo nas zonas tropicais, onde arderam 04% da floresta, sobretudo em África e na América do Sul.

 Globalmente, existem 4050 milhões de hectares de floresta, cobrindo um terço da superfície do planeta. Mais de 90% das florestas regeneraram-se naturalmente, estima a FAO, que analisou dados de 236 países.

 Os dias da conferência, até ao seu encerramento no dia 12, permitirão novos acordos com discussões, trocas de experiências e ajustes de posições de forma a garantir parte da expectativa que ela criou ao mundo.

 A credibilidade perdida de algumas previsões mais catastrofistas do passado, exigem compromissos assentes em dados e previsões bem sustentados na realidade para não se repetirem mentiras tão grosseiras como as produzidas por Al Gore no filme Uma verdade inconveniente (2007), que ganhou um Óscar e fez do seu autor Prémio Nobel da Paz…

 Biden insiste em ser líder neste processo, mas o resto do mundo encara-o como uma construção colectiva assente no multilateralismo.

 

[Artigo tirado do sitio web portugués Abril Abril, do 6 de novembro de 2021]

Volver