Os relatórios de perspectiva econômicas das principais instituições multilaterais –World Economic Outlook (FMI), Commodity Markets Outlook (Banco Mundial) e Economic Outlook Interim Report: Testing Resilience (OCDE)– identificam uma mudança estrutural profunda na ordem econômica internacional. Todos convergem na ideia de que o modelo tradicional de globalização — baseado em energia barata, integração comercial ampla e cadeias produtivas otimizadas — está sendo substituído por uma lógica marcada por segurança energética, rivalidade geopolítica, soberania tecnológica, reindustrialização estratégica e militarização econômica.
Os relatórios afirmam que a guerra no Oriente Médio e a instabilidade no Estreito de Ormuz aceleraram esse processo, provocando interrupções nas cadeias globais de petróleo, gás natural, fertilizantes e transporte marítimo. Energia, semicondutores, fertilizantes, alimentos, minerais estratégicos e indústria militar deixaram de ser apenas setores econômicos e passaram a ser tratados como elementos centrais da segurança nacional das grandes potências.
A previsão geral é de desaceleração econômica. A OCDE projeta crescimento mundial de 2,9% em 2026 e 3% em 2027, enquanto o FMI prevê cerca de 3,1% em 2026, e queda para 2% em cenários mais graves de crise energética e prolongamento dos conflitos geopolíticos. O BM projeta aumento de 16% dos preços das commodities em 2026. Os três relatórios convergem que: 1. a economia mundial ainda demonstra alguma resiliência no curto prazo; 2. a inflação estruturalmente elevada tende a persistir; e 3. a principal fonte de instabilidade econômica passou a ser geopolítica.
O setor de energia é o eixo central da nova dinâmica econômica global. O FMI caracteriza o momento atual como uma era de “choques energéticos geopolíticos permanentes”, em que infraestrutura energética passou a ser alvo estratégico de disputas militares. A OCDE destaca que cerca de 20% da produção mundial de petróleo e parcela significativa do comércio global de GNL dependiam do fluxo pelo Estreito de Ormuz antes da crise. Já o BM considera que o choque atual representa o maior choque de oferta de petróleo desde os anos 1970, prevendo aumento de cerca de 24% nos preços globais de energia em 2026.
Os relatórios também apontam fortes vulnerabilidades regionais, especialmente na Europa e na Ásia. Países como Japão, Coreia do Sul, Índia e economias europeias aparecem como estruturalmente dependentes da energia do Golfo Pérsico. Por isso, os documentos defendem que os países devem investir mais em diversificação de fornecedores, aumento de estoques estratégicos e expansão de energias renováveis.
Outro ponto central é a relação entre energia, fertilizantes, agricultura e insegurança alimentar. Os relatórios destacam que os países do Golfo concentram parcela relevante das exportações globais de ureia, amônia e fosfatos. O BM projeta alta de aproximadamente 31% nos preços globais dos fertilizantes em 2026, o que tende a elevar os preços agrícolas e inflação alimentar persistente. O BM calcula que até 45 milhões de pessoas adicionais poderão entrar em situação de insegurança alimentar. O Brasil aparece em posição ambígua: vulnerável pela forte dependência de fertilizantes importados, mas potencialmente beneficiado pela valorização global das commodities agrícolas e minerais.
As análises enfatizam a importância crescente da IA, dos semicondutores e da reorganização industrial global. A OCDE e o FMI identificam a IA como principal motor recente do crescimento econômico, especialmente nos EUA e na Ásia. O FMI destaca o boom de investimentos em IA, a expansão da indústria de chips e a reorganização das cadeias tecnológicas globais.
Ao mesmo tempo, cresce a demanda por minerais estratégicos utilizados em IA, data centers, veículos elétricos, defesa e semicondutores. Os chips deixaram de ser apenas produtos industriais e passaram a representar ativos geopolíticos estratégicos. Nesse sentido, a OCDE destaca a importância de insumos como hélio, bromina, alumínio e GNL para a indústria tecnológica global. Para eles, os EUA procuram reduzir sua dependência tecnológica da China, reorganizando cadeias produtivas em direção Taiwan, Vietnã e México.
Os relatórios mostram crescente integração entre inteligência artificial, semicondutores, indústria militar, infraestrutura energética e reindustrialização militar estratégica. Forma-se, segundo os documentos, um novo “complexo industrial estratégico global”, em que defesa, tecnologia e energia tornam-se setores profundamente interligados.
A conclusão geral é que a economia mundial está migrando para uma ordem menos globalizada, mais regionalizada, orientada pela segurança nacional, marcada por competição entre grandes potências e fortemente influenciada por disputas energéticas, tecnológicas e militares.
Os relatórios ainda indicam que a IA poderá funcionar como principal mecanismo de compensação da desaceleração econômica global, elevando produtividade e sustentando novos ciclos de investimento industrial. Entretanto, guerras prolongadas, fragmentação comercial, rupturas energéticas e inflação persistente podem redefinir profundamente a ordem econômica internacional ao longo da próxima década.
As análises refletem fatos, efeitos e consequências de ações como a Guerra da Ucrânia, o ataque dos EUA e Israel ao Irã, o fechamento do Estreito de Ormuz e a consequente crise energética mundial. Contudo, parecem descrever um quadro sem revelar o real movimento e seus propósitos.
O “USA National Defense Strategy 2026: restoring peace throught strength for a new golden age of America” mostra a lógica desse movimento econômico e militar. O documento possui quatro grandes linhas de ação: 1. Defender o território americano; 2. Dissuadir a China no Indo-Pacífico; 3. Transferir maior responsabilidade militar para os aliados e 4. Reindustrializar e expandir a base industrial de defesa dos EUA.
Os EUA buscam fortalecer a “Grande América do Norte” –EUA, Canadá, Groelândia, Canal do Panamá e Golfo do México– de onde vão tirar, recursos como petróleo da Venezuela, terras raras da Groelândia e até do Brasil, deixando de depender da China e se tornar fornecedor de armamentos ao resto do mundo.
Para isso buscam terceirizar o máximo de conflitos mundiais, em que estão envolvidos. Ver o conflito Ucrânia x Rússia. De início, os EUA apoiaram financeira e militarmente os ucranianos. A proibição da Europa em importar energia russa, como uma sanção para enfraquecer a Rússia, levou a fragilização da Europa. Hoje a Europa importa GNL dos EUA a um preço quinze vezes maior do que seria pelo Nord Stream, que foi sabotado. Os países da OTAN agora se comprometeram, por pressão dos EUA, a elevarem os gastos militares de 2% para 5% do PIB, e a assumir o apoio direto a Ucrânia. O ataque dos EUA ao Irã colocou os países do Conselho de Cooperação do Golfo no conflito. A Rússia e o Irã, importantes exportadores de recursos energéticos no mundo tem sofrido ataques diretos em suas estruturas de energia.
No Pacífico acordos recentes mostram que os EUA buscam que o Japão assuma papel militar mais ativo e direto na segurança regional, incluindo a Península Coreana, com pressão para que o Japão resvise sua constituição pacifista (Artigo 9) e aumentar os gastos com defesa Japão e sua capacidade militar para conter ameaças da Coreia do Norte, China e Rússia.
Em abril de 2026, o governo do presidente Donald Trump iniciou conversas com grandes montadoras americanas, como Ford e General Motors, para que utilizem sua capacidade industrial para aumentar a produção de munições e equipamentos militares em geral. Com ele segue uma proposta de Trump em aumentar o orçamento militar em 50%.
Os EUA têm hoje U$S 39 trilhões em dívida pública, e a necessidade de U$S 1,2 trilhão de financiamento de juros anuais. A solução para a manutenção do seu financiamento é o caos mundial. Os EUA buscam gerar o máximo de conflitos no mundo, vender armas, energia e tecnologia a esses países. E ainda, financiá-los garantindo o sistema de pirâmide de sua dívida. A idéia é forçar os outros países absorver a dívida dos EUA por meio do estrangulamento militar e econômico mundial. Manter as guerras em ritmo lento é uma boa opção.
Se China é tida como a principal ameaça estratégica dos EUA, ao mesmo tempo, o documento afirma que Washington deve buscar evitar confronto direto com Pequim, defendendo uma lógica de “força sem confronto”. Hoje a China é fundamental para manter e financiar a dívida dos EUA, se ela for atacada pode querer vender seus títulos, o que levaria a quebra do sistema.
Se essa estratégia funcionar os EUA mais uma vez conseguem se reposicionar e recuperar importante papel de liderança econômica, militar, tecnológica e financeira. Se a estratégia não funcionar, esse plano pode colocar todo o mundo contra eles, até o seu próprio povo contra suas elites e uma guerra civil. Os próximos capítulos dessa conjunção que vem sendo montada pelos EUA dirão em que nível as previsões dessas instituições multilaterais conseguiram captar o real movimento da economia mundial.
[Artigo tirado do Boletim nº 17 do Observatório Internacional do Século XXI, maio de 2026]