Resistência bolivariana 2.0

Anisio Pires - 25 Mar 2026

O sequestro do presidente venezuelano impôs uma ruptura radical que invalida comparações com experiências históricas de negociação revolucionária, exigindo uma reinvenção das práticas de resistência diante de um desequilíbrio tecnológico e militar sem precedentes

1.

 Este texto surgiu das nossas preocupações com o presente e o futuro da Venezuela após o ataque dos Estados Unidos. Evidentemente fala de uma realidade particular dentro de um processo histórico próprio do país. No entanto em suas peculiaridades o processo venezuelano enfrenta desafios que todos os países da América Latina têm também pela frente, sobretudo o mais crucial: como é que poderemos construir uma alternativa pós capitalista nas atuais condições históricas?

 Será, como diz o analista Diego Ruzzarin, que os modelos de resistência socialista do Século XX esgotaram suas possibilidades? Que aspectos da bem-sucedida experiência chinesa seriam válidos para a nossa realidade?

 O ato de barbárie contra a Venezuela (03/01/26), com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa Cilia, redefine tudo. Os que pretendem uma volta à “normalidade” devem acordar.

Tanto para responder às manipulações da direita querendo nos dividir, como por motivações honestas visando elevar nossa moral de resistência, circularam certas comparações históricas de modo que as concessões que a presidenta encarregada tem tido que fazer, com a mira na cabeça, não sejam interpretadas como “traição”.

 Citaram o trem “Rumo à estação Finlândia” (1917), o Tratado de “Brest-Litovsk” (1918), a Nova Política Econômica – “NEP” de Vladímir Lênin (1921) e as negociações de Vietnã com os EUA, entre outras. Louváveis exemplos onde os revolucionários aceitaram coisas inaceitáveis, preservando o poder que permitiria atender as demandas populares quando as condições o permitissem. O brutal desequilíbrio tecnológico e militar do ocorrido na Venezuela, inválida essas comparações, embora a busca por preservar o poder bolivariano deve ser, sim, a preocupação de todos.

 Devemos nos reinventar e abandonar a ilusão de que poderemos enfrentar este vendaval com as práticas que já vinham desgastadas. Não esqueçamos que quase sem fazer campanha, a múmia da extrema direita, Edmundo González, obteve pouco más de 40% nas eleições de 2024. É momento parauma introspecção coletiva profunda, “procurar essa autocorreção” que propôs o general Padrino López.

2.

 Com ela devemos buscar as vias de uma revolução prática dentro da revolução. De outro modo, seria cômodo transferir nossa responsabilidade, tornando o presidente Nicolás Maduro num super timoneiro infalível que tudo previu e calculou, deixando de quebra claras instruções para proceder no atual cenário.

 Apenas nos restaria esperar e confiar na indiscutível capacidade e lealdade da presidenta encarregada Delcy Rodríguez, acreditando que com isso poderemos manobrar a chantagem gringa, preservar o poder político e atender a população quando os recursos petroleiros chegarem. O momento é de alerta porque a situação é grave. Temos assistido declarações oficiais complicadas e difíceis de compreender que põem a prova nossa lealdade. Soberania tutelada? “Nervos de aço, calma e cordura”, como sempre nos disse o presidente Nicolás Maduro.

 O analista venezuelano Oscar Schemel advertiu em Editorial do seu programa “Análisis Situacional” (01/02/26) que manipulando o ataque se correrá “o perigo de um Donald Trump convertido em líder protetor, salvador e portador de bem-estar com autoridade simbólica”.

 Dado que os meios para enfrentar a guerra cognitiva tampouco nos favorecem, que novas maneiras de resistir implementaremos para que as melhoras na vida do povo sejam vistas como conquistas da resistência bolivariana e não dos agressores? Haverá uma disputa pela verdade que não ganharemos somente com os celulares, mas revolucionando nossas práticas.

 Mostrar ao povo, com fatos, que o terrível golpe nos fez recapacitar e que agora, da forma mais séria e consequente, reorientaremos nossos passos. Oscar Schemel acrescenta: “Frente a um novo momento histórico, se impõe uma renovada superestrutura cultural e emocional”. Precisamos ações novas que emocionem. Basta de discursos sem resultados.

 O povo revolucionário nos conhece bem. Sabe de nosso patriotismo inegociável, generosidade, solidariedade e humanismo a toda prova, mas sabe também da ostentação e falta de austeridade republicana de alguns, do burocratismo e outras falhas que se repetem. Falta ver que leitura fazem de nós os chamados “nini” (nem chavistas, nem opositores), esse expressivo setor de nossa população, colocado ao centro do espectro político e que é muito pragmático. Estará conosco se mostramos resultados que melhorem sua vida. Caso não inventemos essas mudanças, as forças imperiais terminarão usando o petróleo, a anistia e a paz contra nós.

 Com dor descobrimos que os S300 e os Sukhoi russos não dissuadiram o inimigo e que a “Associação estratégica a toda prova e todo tempo” com a China tampouco. O analista Pepe Escobar disse depois do ataque: “Somente tem uma maneira de deter um império da pilhagem que se descontrola: um guarda-chuva militar-nuclear para todo o Sul Global”.

 Esse guarda-chuva não existirá por um bom tempo. Cabe resistir rumo ao futuro, manobrando até onde se possa contra a chantagem da força, mas ao mesmo tempo enfrentando nossa falha principal, a qualidade. Essa cultura normalizada de se conformar com aquilo que está malfeito, onde opera a desídia e a falta de cuidado com nossas obras e projetos. Enquanto isso, ficamos maravilhados com as conquistas da China como se fossem um filme de ficção científica cujas imagens nos divertem até que termina a sessão.

3.

 Para enfrentar o capitalismo, a China entendeu que deveria passar da quantidade à produção eficiente e de qualidade, não apenas no “econômico”, mas em todas as dimensões da vida. Para que a qualidade e a eficiência possam se desenvolver consistentemente nos espaços produtivos de um país, é necessário que se espalhem também por toda a sociedade como um novo senso comum civilizatório. Ordem, limpeza, beleza e ecologia.

 As extraordinárias imagens que recebemos de toda China falam por si só. Agora o “Feito na Venezuela” (e no Brasil) não alcança. Devemos passar ao Feito na Venezuela e para a Venezuela com excelência. Aprender da humildade de uma cultura milenar: “Devemos adoptar uma atitude inclusiva, aprender modestamente com os aspectos positivos de outras civilizações, digeri-los, absorvê-los e transformá-los no que possa nos servir”. (Xi Jinping 2014).

 Algumas ações, objetivos e metas de curto, médio e longo prazo:

 (i) Saúde: Reestruturação total de seu funcionamento com bonificação especial para seus trabalhadores, eliminando jornadas extenuantes e contraproducentes para os pacientes. Controladoria, fim de corruptelas, ordem, asseio e extrema higiene com pessoal capacitado. O rumo? Saúde e hospitais, em cada estado, nível “grandes ligas”, inspirados no Estadio Monumental Simón Bolívar. Uma obra de altíssima qualidade e beleza em sintonia com a recente vitória da Venezuela no Campeonato Mundial de beisebol, onde derrotou no jogo final o time dos EUA.

 (ii) Poder popular: politizar as consultas trimestrais (espécie de orçamento participativo). Cada comuna deveria votar em um projeto local/territorial e outro de carácter municipal/estadual em debate com as demais comunas do município e o estado. O atual democratismo (cada comuna “seu” projeto), fragmenta as decisões gerando um uso menos eficiente dos escassos recursos.

 (iii) Terceira idade: aumento especial imediato de pensões e aposentadorias. Honrar a nossos idosos aqui e agora. Eles não terão outra vida para seguir resistindo.

 (iv) Trabalho: fazer cumprir a lei de Hugo Chávez de 2012 de 40h semanais, com dois dias consecutivos de descanso. Boa parte dos empresários não a respeita, com trabalhadores fazendo jornadas extenuantes sem a devida compensação. Propor simultaneamente o ético para os socialistas: redução da jornada laboral.

 (v) Educação: a juventude está chegando nas universidades com várias carências formativas. Reengenharia pedagógica com dotação mínima permanente para a manutenção das escolas de ensino fundamental e médio com uma bonificação especial para os professores. Como vem acontecendo em outros países (Lei Felca no Brasil), tomar medidas à brevidade com respeito ao uso dos celulares e redes sociais de forma a proteger os estudantes dos predadores e contribuir na promoção do pensamento crítico e da leitura.

 (vi) Universidades: não se construirá a Venezuela do futuro com universidades marcadas pela precariedade. Dotá-las de recursos fixos para seu funcionamento permanente, promovendo ao mesmo tempo uma nova identidade real, donde se cuidem seus espaços, com uma maior participação protagonista para construir com as comunidades a democracia verdadeira.

Para finalizar, algumas reflexões sobre a qualidade.

 Ser venezuelano (brasileiro) e bolivariano não é a mesma coisa. Karl Marx era alemão, mas a maioria dos grandes marxistas não o eram. Che Guevara nasceu argentino e morreu como cubano exemplar. No Discurso de Angostura (1819), o documento mais brilhante de Bolívar, perto do final, depois de se projetar desde o futuro contemplando as maravilhas que as terras americanas têm oferecido a seus habitantes, o Libertador diz que nos vê “mostrando ao mundo antigo a majestosidade do mundo moderno”.

 Se tem um povo, depois de muitos sacrifícios e sofrimentos, que está mostrando hoje ao mundo a majestosidade que podemos alcançar os seres humanos é o povo da China. A César e a Deus o que lhes corresponde. Vamos nos preparar e praticar para ser bolivarianos como eles.

 

[Artigo tirado do sitio web aterraéredonda, do 24 de marzo de 2026]