Operação Venezuela

Luís Carapinha -

A operação contra a Venezuela intensificou-se depois do desaparecimento precoce de Chávez em 2013, configurando um cenário de guerra total não convencional, em que se procura por todas as formas tornar o país ingovernável. A campanha dos media escarnece esta realidade, vulgariza as conquistas populares dos últimos 17 anos e corta o nexo histórico – e de classe – dos problemas económicos e sociais que fustigam o país

 O quadro dos processos progressistas e emancipadores latino-americanos atravessa um momento especialmente complexo e adverso. Contradições e debilidades próprias de diversa ordem conjugam-se com o foco concentrado do aprofundamento da crise capitalista mundial sobre as suas economias e, sobretudo, a virulenta reacção organizada do poder oligárquico e das forças alinhadas com a ingerência e subversão imperialistas. Ávidos e incertos do dia de amanhã, os batedores da revanche neoliberal palmilham o terreno, arremetendo contra tudo o que cheire a direitos sociais e democráticos, controlo e propriedade públicas, independência nacional e cooperação regional soberana.

 Aí está o entreguismo de Macri, na Argentina, e a desabrida tentativa de desenterrar o bolorento Consenso de Washington. No Brasil, o golpe de estado em movimento entrou na fase crítica, dois anos volvidos da reeleição da presidente Dilma por 54 milhões de brasileiros. Quanto à Venezuela, é uma peça central das ameaças do Comando Sul do Pentágono e da ira de Washington. Reveladoramente, antes de viajar para Cuba e Argentina, Obama renovou a macabra ordem executiva que considera o país uma ameaça «incomum e extraordinária» para a segurança nacional e política externa dos Estados Unidos. De Caracas e Quito soam alertas para o perigo de um novo Plano Condor na América Latina. Lula aponta as ameaças do fascismo.

 Ao longo da história, nos momentos mais duros e aziagos, a resistência e protagonismo das massas foram determinantes para rasgar novos horizontes e lograr a senda da justiça e progresso sociais. Cabe-o recordar em relação à Revolução Bolivariana, na semana em que se assinala mais um aniversário da derrota do golpe de 2002. Recuemos 14 anos. O processo bolivariano havia irrompido há pouco mais de três anos, depois de um rotundo triunfo eleitoral, numa América Latina já em contorção, em que apenas a resistência cubana desafiava a hegemonia de Washington e o diktat do FMI. Em pleno contra-ciclo revolucionário, após o fim da URSS. Quando Chávez foi detido e afastado de Miraflores por 47 horas nenhum dos actuais processos progressistas na América Latina – no Brasil, Uruguai, Bolívia, Nicarágua, Equador, entre outros – era realidade. Não existiam a ALBA, UNASUR, ou CELAC, nem a cadeia noticiosa Telesur. Estava por quebrar a espinha da ALCA e só bem depois teriam lugar os encontros BRICS – UNASUR e China – CELAC.

 Os golpistas não tiveram pejo em pisotear a Constituição bolivariana e dissolver a suas instituições, paramentados pela cúpula eclesiástica e sob o aplauso mentor de Wall Street, Bush e Aznar, e dos media democráticos mundiais. O levantamento do povo açoitado pelo Caracazo de 1989, fresco na memória e na carne, foi fundamental para a reviravolta de 13 de Abril. Nos quartéis, os oficiais com comando de tropas insurgiram-se. A união povo-forças armadas demonstrava o seu vigor. Correndo contra o tempo, os golpistas haviam empossado Pedro Carmona, que presidia ao grande patronato venezuelano. Consta que um assistente cochichou, inquieto, ao ouvido do fantoche: Presidente tomámos o poder ou estamos cercados no Palácio?

 Desde então passou-se a dizer que não há 11 sem 13. Porém o cenário de golpe regressou, perigosamente, na onda da contínua guerra económica e afundamento das cotações do petróleo. A operação contra a Venezuela encontra-se ao rubro. Intensificou-se depois do desaparecimento precoce de Chávez em 2013, configurando um cenário de guerra total não convencional, em que se procura por todas as formas tornar o país ingovernável. A campanha dos media escarnece esta realidade, vulgariza as conquistas populares dos últimos 17 anos e corta o nexo histórico – e de classe – dos problemas económicos e sociais que fustigam o país.

 Urge desmascarar esta campanha. A hora é de solidariedade com os trabalhadores e o povo venezuelanos e a luta das forças anti-imperialistas em defesa da revolução bolivariana.

 

[Artigo tirado do sitio web portugués ‘Avante’, núm. 2.211, do 14 de abril de 2016]

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