O que não te contaram sobre o governo de Maduro e a economia venezuelana

Juliane Furne - 08 Xan 2026

Não é possível negar a grave crise econômica e humanitária que viveu a Venezuela. O que não podemos é não apresentar os verdadeiros culpados: os EUA e suas formas de asfixia econômica, somada a uma economia que, infelizmente, ainda é deveras dependente da atividade petrolífera

 Você pode, por quaisquer razões, não gostar do governo de Nicolás Maduro. Mas você não pode ignorar os fatos concretos que atravessaram o seu governo. É comum, entre a militância de esquerda, um olhar nostálgico sobre o governo do comandante Hugo Chávez. O saudosismo com essa experiência histórica se explica por diversos motivos.

 A Venezuela foi, historicamente, um país rentista petroleiro. Isso significa que mais de 90% da atividade econômica nacional não somente se concentrava na atividade petrolífera, mas, principalmente, no mercado internacional, já que parte substancial da produção doméstica de petróleo se destina ao mercado exterior.

 No início dos anos 1990, a Venezuela passou por uma grave crise econômica. A situação econômica misturou dois elementos críticos: de um lado a crise da dívida externa, que atingiu quase todos os países latino-americanos, e, de outro, a queda do preço do petróleo.

 Isso significou menos dólares entrando, pressão nas contas públicas e no balanço de pagamentos, e dificuldade de manter o padrão de consumo/importações, além da hiperinflação.

 No fim da década, com a situação fiscal e externa apertada, o governo Carlos Andrés Pérez lançou um pacote de ajuste associado a um programa de apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI). Medidas como o aumento de preços/transportes e liberalizações detonaram protestos e saques que ficaram conhecidos como “Caracazo”, movimento que foi fortemente reprimido com grande número de mortes.

 O Governo Chávez é fruto desse descontentamento social, da crise econômica e das respostas neoliberais e antinacionais a esses eventos. Após a eleição de Chávez e a vitória contra os intentos golpistas de 2002, a situação venezuelana mudou substancialmente: houve a nacionalização do setor de petróleo e a utilização da renda petrolífera para o financiamento de importantes programas sociais. As políticas públicas concentravam-se em “missões sociais” e focaram, em especial, na construção de mais de 5 milhões de habitações populares, na queda do analfabetismo, da extrema pobreza e na ampliação da atenção primária em saúde.

 O governo Maduro, no entanto, herda um conjunto de adversidades das quais não viveu o governo Chávez. Em primeiro lugar, embora a administração chavista tenha sido exitosa do ponto de vista social, ela não foi suficiente para avançar na diversificação produtiva. Ou seja, não avançou o suficiente para superar a dependência do petróleo. 

 Portanto, a queda substancial de 70% do preço do barril de petróleo em 2014 é um primeiro baque que enfrentou a administração Maduro, já que em torno de 95% das receitas de importação viam desse setor. O país, quase sem reservas internacionais, se viu submetido a uma grave crise, com dificuldade de importação de produtos básicos e com escalada da inflação.

 A situação se intensificou no ano de 2016, quando Juan Guaidó se autoproclamou presidente da Venezuela. Nesse episódio, o governo dos EUA reconheceu a nova autoridade. Assim, foram bloqueadas as contas venezuelanas, com o encerramento de diversas operações bancárias no país.

Isso foi um golpe na capacidade de operar transferências e liquidar pagamentos fora do país. Quando um grande banco correspondente sai de cena, o país perde caminhos práticos para pagar importações e fretes em dólares; rolar e operar pagamentos internacionais e usar contas no exterior com normalidade.

 Em 2017, os EUA avançam com mais restrições financeiras, reduzindo o acesso ao financiamento. Em 2018, há o congelamento dos ativos da Venezuela e da PDVSA nos EUA e, em 2019, há o bloqueio das reservas de ouro da Venezuela e o embargo a exportação de petróleo aos EUA.

 Em 2020, o governo Maduro ainda enfrenta os graves efeitos da pandemia da Covid-19 e uma nova baixa do barril de petróleo. O governo Maduro ainda encara uma “guerra econômica” com práticas como açambarcamento (estoque deliberado), sabotagem, especulação e contrabando de extração, especialmente em bens subsidiados.

 Portanto, não é possível negar a grave crise econômica e humanitária que viveu a Venezuela. O que não podemos é não apresentar os verdadeiros culpados: os EUA e suas formas de asfixia econômica, somada a uma economia que, infelizmente, ainda é deveras dependente da atividade petrolífera.

 No entanto, desde 2022, a economia venezuelana vinha apresentando uma surpreendente capacidade de recuperação. De mais de 1000% ao ano, a inflação venezuelana caiu para menos de 10%. A suspensão de algumas sanções internacionais à exportação de petróleo aos EUA também contribuiu para o aumento das receitas em dólares e o contorno à situação de escassez nos supermercados.

 Entre 2022 e 2024, aproximadamente 4,6 milhões de pessoas saíram da pobreza. Segundo relatório da Comissão Econômica para América Latina e o Caribe (Cepal), a economia venezuelana foi a que mais cresceu nos anos de 2024 e 2025, com taxas de 8,5% e 6%, respectivamente. 

 Portanto, a avaliação do governo de Nicolás Maduro deve ser feita com mais cautela. Desconfiando da narrativa das mídias tradicionais e à luz dos desafios de uma economia asfixiada pelo imperialismo estadunidense. 

 

[Artigo tirado do sitio web brasileiro Brasil de Fato, do 7 de xaneiro de 2025]