O paradoxo de Ormuz

José Luís Fiori - 22 Mai 2026

Desfecho da guerra é incerto. Mas fracasso inicial dos EUA e Israel já produz terremoto geopolítico – que vai muito além do Oriente Médio. Começa a surgir uma ordem multipolar. E Trump, o cínico, pode ser (quem diria?) o primeiro a aceitá-la

 Fazem três décadas, pelo menos, que Benjamin Netanyahu conspira continuamente para convencer o governo norte-americano a participar de um ataque conjunto, massivo, relâmpago, e devastador, contra o Irã. E acabou conseguindo persuadir o presidente Donald Trump de que obteria uma vitória rápida e uma mudança quase instantânea do regime iraniano depois que a aviação israelense assassinasse – nos primeiros minutos do combate – as principais lideranças religiosas, civis e militares do povo persa. Promovendo a instalação de um governo títere que destruísse o programa nuclear e o sistema de defesa balístico iraniano, e que suspendesse seu apoio ao “eixo da resistência” à Israel, no Líbano, no Iraque e no Yemen.

 Mas nada disto aconteceu depois do ataque surpresa do dia 28 de fevereiro de 2026.. Pelo contrário, passados quase três meses do início do conflito, pode-se dizer – do ponto de vista dos objetivos declarados pelas potências agressoras – que Israel e Estados Unidos sofreram uma grande derrota estratégica. As autoridades assassinadas foram substituídas rapidamente, o programa nuclear iraniano não foi desativado, seu sistema de produção e defesa balístico não foi destruído, as suas reservas de uranio enriquecido não foram localizadas, e o Irã segue apoiando seus aliados do “eixo da resistência”. Além disto, os mísseis e drones iranianos atingiram, destruíram ou danificaram pesadamente todas as bases americanas ao redor do Golfo Pérsico, além de terem “vazado” o sistema de defesa aérea de Israel – o Iron Dome, que era considerado indevassável.

 Por outro lado. apesar do bombardeio, massivo e contínuo do território iraniano, durante mais de um mês de combate o Irã ainda mantém – segundo a inteligência americana – 70% de seus lançadores móveis em todo o país, e conserva cerca de 70% do seu arsenal do pré-guerra. E além disto, conseguiu restabelecer o acesso operacional de 30 de seus 33 locais de mísseis ao longo do Estreito de Ormuz, tendo recuperado o acesso a 90% de suas instalações militares subterrâneas. E apesar da destruição causada pelos bombardeios, o Irã conquistou uma vitória extraordinária ao assumir o controle militar e a soberania econômica sobre o Estreito de Ormuz. Por tudo isto, os norte-americanos, mais do que os israelenses, encontram-se neste momento num “beco sem saída”, sem o apoio de sua própria população e divididos entre a alternativa de prosseguir indefinidamente uma guerra impopular, ou aceitar uma retirada e um acordo de paz que eles consideram humilhante. Uma posição estratégica extremamente desconfortável, agravada pelo fato que neste momento é o Irã que está “dando as cartas” nas negociações de paz intermediadas pelo Paquistão, e sustentadas pela China.

 Neste momento paira no ar uma enorme incerteza com relação ao desfecho desse conflito, mas o mais provável é que a guerra prossiga por tempo indeterminado. Assim mesmo, o terremoto mundial provocado pela vitória estratégica do Ira, e sobretudo pelo seu controle do Estreito de Ormuz, produziu três sequelas, pelo menos, que já são irreversíveis. A primeira, é que ficaram explícitos os limites do poder militar norte-americano, mesmo no caso de uma guerra assimétrica, o que atinge em cheio o projeto de supremacia militar global de Donald Trump. A segunda, é que Israel perdeu a aura de sua invencibilidade, depois que sua estratégia dos assassinatos seletivos fracassou, e depois que seu sistema de defesa foi vazado, e depois que suas bases militares foram atingidas, dentro do próprio território israelense. E a terceira é que o Irã já conquistou uma nova posição hierárquica dentro do mapa geopolítico do Oriente Médio que nascerá desta guerra, com relação aos países árabes, e com relação a Israel.

 Mais além destas consequências imediatas, os efeitos em cadeia desse grande erro estratégico norte-americano foram bem além do Oriente Médio. Parece não haver dúvida, por exemplo, que cresceu em todo mundo a desconfiança dos países que dependem da “proteção militar’ dos EUA, como é o caso exemplar de Taiwan. Haja vista que durante a guerra, a líder do principal partido de oposição de Taiwan, (o partido nacionalista Kuomitang (KMT) fundado por Sun Yat-sen, em 1912) a senhora Cheng Li-Un fez uma visita oficial de cinco dias – absolutamente inusitada – à Pequin onde discutiu pessoalmente com o presidente Xi Jinping a possibilidade de uma reaproximação pacífica entre o continente chinês e sua “ilha rebelde”. Um acontecimento difícil de ser imaginado sem ter em conta a fragilização americana frente aos seus “protetorados militares”.

 E o mesmo pode ser dito com relação à posição do presidente Donald Trump, durante sua visita oficial de dois dias à Pequim, quando foi obrigado a tratar a China de igual para igual e teve que ouvir em silencio a ameaça do presidente Xi Jinping de que haverá guerra se os EUA intervierem a favor da independência de Taiwan. Neste sentido, não há dúvida que a impotência dos EUA frente ao fechamento iraniano do Estreito de Ormuz acelerou o processo em curso de deslocamento do centro do poder político e econômico do Sistema Mundial, na direção da Ásia, em particular na direção da China.

 Mas isto não significa, de forma alguma, o fim do “poder americano”, nem muito menos que os EUA deixarão de ser uma grande potência durante o Século XXI. Mesmo derrotados no Vietnã, no Afeganistão e agora no Irã, os EUA mantêm sua capacidade global de atacar, punir e destruir seus “desafetos”, e isto lhe assegura lugar central dentro da ordem multipolar que estará sendo construída ao longo deste novo século. Além disto, apesar do panorama geral ser extremamente sombrio, não é impossível que as negociações em torno à “Paz de Ormuz” possam se transformar na primeira grande negociação da nova era multipolar do sistema mundial.

 Neste ponto não cabe dúvida sobre a posição belicista dos europeus que se preparam atualmente para uma grande guerra contra a Rússia. E não se deve esperar que Israel abdique de sua estratégia de “guerra permanente’ contra os povos islâmicos e contra o Irã em particular. E portanto, todas a questão é saber se os EUA acabarão aceitando sua nova posição como uma entre outras potencias equivalentes. E neste ponto, apesar de todos os sinais contrários, Donald Trump talvez ainda seja o líder norte-americano com maior possibilidade de dar este passo rumo a um novo equilíbrio mundo de poder. Neste momento, o Partido Democrata está sem nenhum projeto alternativo, e se voltarem, ao poder o mais provável é que se alinhem com os europeus numa guerra geral com os russos. E dentro do Partido Republicano, se Donald Trump for sucedido por David Vance ou por Marco Rubio, o que se deve esperar é um a estratégia internacional igualmente agressiva e baseada na força, mas complementada por uma visão ideológico-religiosa fundamentalista de defesa da civilização ocidental, branca e cristã, e de promoção de uma “guerra entre civilizações”, como foi antecipado por Samuel Huntington, na década de 90 do século passado, e que agora aparece defendida de forma explícita, no manifesto de 22 pontos publicado no jornal New York Times, no dia 18 de abril de 2026, por Alex Karp, CEO da Empresa Palantir, estreitamente associada ao Pentágono e muito próxima do vice-presidente norte- americano, e David Vence.

 Neste contexto, paradoxalmente o realismo pragmático, quase cínico e sem pretensões catequéticas, próprias de um jogador e negocista, admirador da força e do dinheiro representa uma rara “janela de oportunidade” (por curto espaço de tempo), para uma negociação com a China e com a Rússia, inicialmente, das bases estratégicas deste novo mundo multipolar, começando pela definição de algumas de suas linhas vermelhas intransponíveis comumente aceitas, no Oriente Médio, no Pacífico, no Atlântico, e na própria Europa. Mas nesse momento, esta possibilidade depende quase inteiramente da capacidade do presidente norte-americano se impor frente à figura conspiratória, fanática e belicista do seu sócio Benjamin Netanyahu. Isto será possível? Sim, é possível, ainda que seja pouco provável.

 

 

[Artigo publicado no sitio web brasileiro Outras Palavras, do 21 de maio de 2026]