O golpe palaciano na Arábia Saudita

António Abreu -

Netanyahu está a empurrar a Arábia Saudita para atacar a resistência libanesa e a preparar a opinião pública internacional para esse fim. Isto acontece na altura em que se entrou num novo período no Médio Oriente, marcado pela derrota do Estado Islâmico no Iraque e na Síria e pelo falhanço de Massoud Barzani em constituir um Curdistão que fosse a plataforma para Israel atacar o Irão

Não há informações sobre os reais motivos do golpe. Tudo indica que as reformas de Moahmmed bin Salman (MBS) e o seu poder pessoal estavam ameaçados. O actual governante anunciou uma série de reformas políticas e económicas no país. Enquanto reforça o seu poder político pessoal, adopta uma atitude mais agressiva na repressão política e na política externa.

 Mais de mil personalidades sauditas foram presas no decurso do golpe palaciano do passado dia 4. Os detidos pertencem principalmente ao clã Abdullah, mas também a outros clãs que estariam a disputar a sucessão do trono.

 Enquanto alguns dos «suspeitos» foram presos, outros estão sob prisão domiciliária no Hotel Ritz-Carlton. Dormem em colchões, guardados pelas forças de segurança.

 De acordo com o Wall Street Journal, o total de bens confiscados a adversários e rivais políticos do príncipe herdeiro Mohammed Ben Salman é de 800 mil milhões de dólares. No entanto, uma grande parte desses activos está estacionada no exterior, o que forçará a Arábia Saudita a afirmar os seus direitos sobre eles.

 No mesmo hotel encontrava-se – e lá continua – o primeiro-ministro do Líbano, Saad Hariri, que aí tinha anunciado a sua demissão, tendo-a comunicado por telefone ao presidente libanês Michel Aoun que afirmou que só a aceitará presencialmente.

 Na sua alocução de demissão, às 11h (locais) de dia 4, o primeiro-ministro libanês justificou a sua decisão, de forma muito pouco convincente, por recear pela sua vida, aludindo ao assassinato do anterior primeiro-ministro, seu pai, Rafiq al-Hariri, e à interferência que o Irão e o Hezbollah estariam a ter contra a estabilidade política do conjunto dos países árabes.

 As autoridades libanesas negaram a existência de qualquer tentativa de assassinato contra ele que a estação Al-Arabyia, logo a seguir à alocução de demissão, tinha garantido ter existido anteriormente. Será mais plausível admitir que Hariri fez o jeito ao seu credor, a Arábia Saudita, a quem deve 4 mil milhões de dólares, a título pessoal. Hariri é também, atendendo à sua dupla nacionalidade, um bastardo do clã Abdallah.

 Depois da alocução, no fim do dia dá-se o ataque atribuído aos Houthis ao aeroporto de Riade com mísseis Patriot. Minutos depois, Mohammed bin Salman deu o golpe, demitindo figuras associadas a outros concorrentes ao trono, aprovou nova lei antiterrorista e pôs em acção uma Comissão de Luta Contra a Corrupção que procedeu à prisão e centenas de personalidades, incluindo príncipes. Mas anunciou também uma série de medidas que lhe garantissem o apoio popular.

 Entre os detidos no hotel estão responsáveis e grandes empresas, o que dificultará certamente a atracção do investimento estrangeiro.

 Estas são as notícias que nos chegam. Mas para o entendimento do que pressiona os acontecimentos na Arábia Saudita, há que atender às seguintes questões.

 Por um lado, a abertura do capital da Aramco a 5% provavelmente feito na bolsa de Nova Iorque, apesar de também ter sido considerada ser feita nas bolsas de Londres e Hong-Kong.

 A Aramco saudita é a maior empresa de energia do mundo. Essa abertura do capital social da companhia em bolsa de valores com a oferta pública inicial de acções (IPO, na sigla em inglês) criaria uma das mais valiosas empresas de energia do mundo.

 A companhia produz mais de 10% da oferta mundial de petróleo todos os dias e controla uma grande cadeia de refinarias e instalações petroquímicas para complementar as suas operações de exploração e produção.

 As estimativas quanto ao valor da Aramo variam, mas com base num número conservador de cerca de 2,5 biliões (milhões de milhões, doze zeros à direita dos 2,5), a possível abertura de 5% do capital em acções resultaria num valor potencial de 125 mil milhões de dólares – maior que o da British Petroleum (BP) e da francesa Total.

 Os sauditas começaram a considerar abrir o capital da companhia num momento em que o país procura gerar receitas atendendo à queda acentuada do preço do petróleo e a uma nova fase da aproximação de uma menor dependência das economias de todo o mundo do petróleo e derivados.

 A economia está em recessão e as reservas externas estão a esgotar-se.

 O homem forte que sobressai do golpe palaciano em curso, o vice príncipe Mohammed bin Salman, tem dirigido o «Plano de Transformação Nacional», destinado a promover o crescimento do sector privado e a reduzir a dependência do governo da receita obtida com as exportações de petróleo.

 No dia 5, Trump tweetou que «apreciaria muito que a Arábia Saudita fizesse a oferta pública da venda das acções da Aramco junto do New York Stock Exchange, coisa que considerava importante para os Estados Unidos!». Trump também deu os parabéns a Salman por tudo o que fez desde que chegou ao poder.

 O Reino Unido não se fez esperar e declarou-se pronto a assinar uma garantia de empréstimo de 2 mil milhões de dólares para a Aramco, e prepara-se para hospedar a flutuação do mercado de acções do gigante da energia da Arábia Saudita.

 Mas a visita do rei, há poucas semanas, feita à Rússia e a visita de responsáveis russos a MBS para falarem, em termos promissores sobre a energia e o investimento, revelam que ambos não quererão por os ovos todos no mesmo cesto

 Esta precipitação da abertura do capital social poderá ter enfrentado oposições quanto à formação mais ou menos rápida do preço das acções e à consideração ou não no pacote a negociar das próprias reservas do petróleo do país.

 Uma outra questão ainda é do campo económico, Mohammed bin Salman ter um programa de diversificação da economia saudita, historicamente dependente apenas do petróleo. O seu plano visa industrializar o país, criar um polo de desenvolvimento no campo da informática, aumentar o rendimento vindo de sectores não petrolíferos para um milhão de milhões de dólares por ano, criar uma política de 75% de conteúdo nacional para a exploração do petróleo, além de medidas para ampliar o turismo. Reformas estas que visam modernizar o país que sempre foi um pilar da dominação imperialista no Oriente Médio.

 Outra questão prende-se com o sempre presente conflito entre a Arábia Saudita e o Irão por maior protagonismo no mundo árabe.

 Uma outra questão tem a ver com o papel de Israel. De acordo com o canal de televisão israelita 10, o governo de Netanyahu enviou uma mensagem para todas as suas embaixadas à tarde para lhes pedir que:

- fizessem lobbying com o governo do país onde estão para lhes explicar o ponto de vista israelita sobre a renúncia do primeiro-ministro libanês, Saad Hariri. Este tipo de démarche é muito raro.

- convencer cada governo de que esta demissão provaria até que ponto o Irão e o Hezbollah poriam em causa a segurança do Líbano.

- afirmar que esta renúncia contradiz o argumento de que a participação do Hezbollah no governo libanês estabiliza o país.

- apoiar a Arábia Saudita na sua guerra contra os rebeldes Houthis do Iémen e dizer que o ataque de mísseis contra o aeroporto de Riade exige uma maior pressão sobre o Irão e o Hezbollah.

É evidente a crescente agressividade saudita contra o Líbano

 No dia seguinte à alocução da demissão de Hariri, à queda de um míssil Patriot, e disso ter sido atribuído aos Houthis do Iémen, Sayyed Hassan Nasrallah, secretário-geral do Hezbollah, assinalou a incongruência da demissão do primeiro-ministro libanês, Saad Hariri, dizendo que a alocução lhe tinha sido imposta e reclamando o seu regresso ao Líbano.

 A incongruência poderia resultar de Hariri, como outros responsáveis libaneses, ter recebido um enviado do Guia Ali Khamenei e trocado declarações amistosas nas vésperas. Hariri, poucas horas depois, foi chamado a Riade.

 Na manhã de dia 6, o ministro saudita das Relações Exteriores Adel Jubair disse à CNN que os rebeldes Houthi tinham disparado um míssil no aeroporto de Riade e que isso era um acto de guerra. E o Ministro dos Assuntos do Golfo, Thamer al-Sabhan, no Al-Arabiya, descreveu o discurso de Hassan Nasrallah como uma «declaração de guerra contra a Arábia Saudita».

 Curiosamente, a imprensa internacional começou por tratar da demissão de Saad Hariri, como facto independente do golpe palaciano que se deu, evidentemente com atempada preparação por Riade. Desde então, a revelação de outros factos deu crédito a que essa renúncia era apenas uma parte do golpe de Estado, dando razão a Hassan Nasrallah.

 Israel não planeia atacar o Hezbollah novamente, dados os riscos militares e diplomáticos de tal operação. Mas o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu está a empurrar a Arábia Saudita para atacar a resistência libanesa e a preparar a opinião pública internacional para esse fim.

 Isto acontece na altura em que se entrou num novo período no Médio Oriente, marcado pela derrota do Estado Islâmico no Iraque e na Síria e pelo falhanço de Massoud Barzani em constituir um Curdistão que fosse a plataforma para Israel atacar o Irão.

 Depois da devastação pelas guerras dos outros estados da região, só saíram ilesos Israel, a Turquia, o Irão e a Arábia Saudita.

 Antes do golpe de Riade, Israel tentou, sem êxito, criar um movimento separatista druzo à semelhança do que conseguira fazer no norte do país e no Iraque com os curdos.

 Parece difícil acreditar que, apesar disso, e depois dos Guardas da Revolução do Irão terem vindo em apoio dos houthis, a Arábia Saudita estar a não ter sucesso militar contra o Iémen e o apoio popular do novo rei estar reduzido, MBS pudesse investir numa guerra contra o Hezbollah e o Irão, para a qual o empurram quer Israel quer os EUA.

 Pouco tempo antes do presente golpe, o príncipe declarara querer modernizar o wahhabismo, corrente árabe saudita, e fazê-la evoluir para uma versão laica, chegando mesmo a prender mais de um milhar de imãs e teólogos ou a conceder às mulheres a condução automóvel ou a assistência a jogos em estádios.

Centralização do poder em MBS

 Todas as decisões de prisão das personalidades referidas foram realizadas pela Comissão Anti-Corrupção criada pelo príncipe, que passou a dispor de todos os seus bens, pessoais e das empresas que dirigiam.

 O príncipe MBS dirige, neste momento, os três exércitos da Arábia Saudita, a Aramco, o comité encarregado de todos os assuntos económicos que está prestes a lançar a maior privatização que o reino viu, e controla todas as cadeias de comunicação social sauditas, excepto a Al-Jazeera situada no Qatar com quem os sauditas abriram um conflito que perdura.

 O rei Abdullah, que reinou entre 2005 a 2015, transformou o sunismo em religião do estado e praticou uma ditadura sangrenta e sem piedade. Depois da morte do rei Abdullah, perfilaram-se três herdeiros futuros, entre os quais MBS, que tratou agora de afastar os outros dois.

 O próprio Hariri só não foi preso com as restantes personalidades do clã Abdullah por, apesar de ter anunciado a sua demissão como Primeiro-Ministro do Líbano, tinha que dar andamento à gestão corrente no Líbano até à nomeação de quem o substituísse nessas funções.

 Pouco tempo antes do presente golpe, o príncipe MBS declarara querer modernizar o wahhabismo, corrente árabe saudita do sunismo, e fazê-la evoluir para uma versão laica, chegando mesmo a prender mais de um milhar de imãs e teólogos ou a conceder a condução automóvel às mulheres.

 O rei que lhe sucedeu até ao presente foi Salman bin Abdulaziz al-Saud, que é um dos sete filhos do rei Abdul Aziz Al-Saud, que criou o Estado saudita moderno.

 Em 2012, com a morte do príncipe-herdeiro Nayef, foi eleito príncipe herdeiro pelo rei Abdullah (seu meio-irmão) e pelo Conselho da Aliança (que reúne os principais Príncipes da Casa de Saud) e assumiu o trono saudita em 2015, estando hoje com 82 anos, e já de saúde debilitada. Com o seu golpe, MBS pode ter pretendido conjurar quaisquer movimentos que lhe retirassem a sucessão a seu pai e actual rei.

 Como se percebe, esta é uma situação muito complexa mas, globalmente, a passagem da ditadura obscurantista para um «despotismo esclarecido» vai abrir novas oportunidades de resolver velhos problemas, o que não será contraditório com que, neste novo puzzle em reconstrução, os vários interesses em presença se movimentem, eventualmente em termos diferentes dos do passado recente.

 

[Artigo tirado do sitio web portugués Abril Abril, do 13 de novembro de 2017]

Volver