1.
A geração nascida no pós-guerra, especialmente os baby boomers, talvez tenha sido a primeira na história a atravessar sucessivas revoluções tecnológicas completas dentro de uma única vida. Uma pessoa nascida em 1951 pôde sair do rádio de válvula para a Inteligência Artificial; da carta manuscrita para mensagens instantâneas globais; do cinema de bairro para streaming algorítmico; do disco de vinil para música imaterial em nuvem; da máquina de escrever para modelos generativos de linguagem.
Não foi apenas mudança de aparelhos. Foi uma transformação radical da relação humana com o tempo, a memória, o conhecimento, a atenção, a sociabilidade, o consumo cultural e a imaginação.
A infância dos anos 1950 ainda era mecânica, elétrica, analógica, coletiva e relativamente lenta. Os equipamentos centrais eram rádio, vitrola, TV preto-e-branco, telefone fixo, câmera fotográfica de filme, projetor doméstico, jukebox, revistas de quadrinhos. A música dependia de discos de 78 rotações, depois LPs de vinil. A televisão ainda era escassa, familiar, ritualística e com poucos canais.
Quando essa geração chegou à adolescência e juventude nos anos 1960, tornou-se a “geração 68” com uma juventude elétrica e cultural. Explodiu o consumo juvenil. Surgiu a cultura jovem global com rock, festivais musicais, contracultura, psicodelia e cultura pop.
Entraram em cena os toca-discos portáteis, os rádios transistorizados, a TV colorida, as fitas cassete, os gravadores, as câmeras Super-8, os amplificadores e os instrumentos elétricos, destacadamente, a guitarra. A cultura tornou-se internacionalizada, eletrificada e centrada na juventude. A música deixou de ser apenas entretenimento e virou identidade, contestação, comportamento e política.
A revolução das mídias domésticas ocorreu no período 1970–1990. Talvez tenha sido a maior expansão de consumo eletrônico doméstico da história.
A geração, cuja infância tinha o rádio como distração, passou a gravar músicas em cassete, assistir filmes em VHS, alugar filmes e montar coleções domésticas. A sequência foi impressionante em instrumentos para escutar música: LP de vinil – fita cassete – Walkman – CD – MP3 – downloads – iPod – streaming – Spotify.
Cinema e TV não ficaram muito atrás: cinema de rua – TV preto-e-branco – TV colorida – antena parabólica – videocassete – TV a cabo – DVD – Blu-ray – streaming – smart TVs – 4K – 8K – OLED/QNED.
Em fotografia, as inovações tecnológicas foram: filme fotográfico – slides – Polaroid – câmera digital – smartphone – imagem computacional com IA.
Cada etapa dessas evoluções “destruía criativamente” a anterior à la Schumpeter.
2.
O computador pessoal (PC) evoluiu desde a máquina isolada até a mente conectada. Nos anos 1980, o PC ainda era relativamente isolado, usado para texto, planilhas e jogos simples. Foram equipamentos icônicos: IBM PCs; Apple Macintosh; disquetes; monitores CRT; impressoras matriciais.
Nos anos 1990, iniciou-se a internet comercial, as mensagens por e-mail, navegadores, web, fóruns e chats. A informação deixou de ser escassa.
Nos anos 2000, houve a convergência digital a partir dos smartphones onde se reuniram telefone, câmera, rádio, TV, música, GPS, jornal, agenda, banco, computador. Todos fundem-se em um único dispositivo.
O smartphone torna-se prótese cognitiva, carteira digital e monetária, mapa, memória, meio de sociabilidade e até plataforma de trabalho. A vida cotidiana torna-se permanentemente conectada.
***CADRO
A atual Revolução da Inteligência Artificial é algo qualitativamente diferente. As revoluções tecnológicas anteriores ampliavam capacidade física ou informacional. A Inteligência Artificial começa a afetar a linguagem, o raciocínio, a criatividade, a decisão e a produção intelectual. Isso aproxima-se de uma mudança civilizatória.
3.
A Inteligência Artificial ampliará ou atrofiará a mente humana? Esta pergunta é central. A resposta provavelmente é: ambos os processos podem ocorrer simultaneamente.
A Inteligência Artificial como ampliação cognitiva pode democratizar acesso ao conhecimento, acelerar pesquisa, reduzir tarefas repetitivas, ampliar produtividade intelectual, auxiliar educação e expandir capacidades criativas.
Ela pode funcionar como “exocérebro”, amplificador cognitivo, biblioteca dinâmica e assistente intelectual. Algo semelhante ocorreu com a escrita, a imprensa, a calculadora, o computador e a internet. Cada tecnologia inicialmente gerou medo de “atrofia mental”.
Mas existe risco real de empobrecimento cognitivo. Acontecerão, ao mesmo tempo, riscos profundos se houver dependência intelectual, perda de memória ativa, superficialidade, terceirização do pensamento, redução da concentração, automatização da escrita e passividade cognitiva.
Já ocorreu algo semelhante com o GPS reduzindo a orientação espacial, a calculadora reduzindo cálculo mental e as redes sociais fragmentando atenção. A Inteligência Artificial pode intensificar isso.
Questão decisiva diz respeito ao uso ativo ou passivo. Talvez a diferença histórica central seja, no uso ativo, a Inteligência Artificial atuar como ferramenta crítica, apoio à reflexão, expansão criativa e meio de investigação. No uso passivo, a Inteligência Artificial agiria como substituta do pensamento, seria geradora automática de opinião e uma simplificadora extrema, provocando um mecanismo de dependência.
Daí haveria a transformação da própria ideia de conhecimento. Por isso, há algo ainda mais profundo. Durante séculos, conhecer significava memorizar. Depois, passou a significar saber buscar informação.
Agora talvez passe a significar interpretar, selecionar, criticar, formular boas perguntas e integrar conhecimentos. O valor cognitivo pode deslocar-se da retenção pura para a capacidade crítica e sistêmica.
A geração dos baby boomers atravessou todas as eras. Talvez a singularidade histórica dos baby boomers seja exatamente esta. Nós vivemos uma infância pré-digital, uma juventude elétrica, uma maturidade eletrônica, uma vida adulta informática e estamos agora em uma velhice algorítmica.
Poucas gerações atravessaram transformações tão profundas: tecnológicas; culturais; urbanas; cognitivas; afetivas; e comunicacionais. Em uma única vida, passamos da escassez de informação à superabundância informacional; da cultura local à cultura planetária em tempo real; da memória material à nuvem digital; da máquina mecânica à inteligência artificial generativa. Só vivemos a vida…
[Artigo tirado do sitio web brasileiro aterraéredonda, do 3 de xuño de 2026]