Estados Unidos: Pirataria, assassinatos e sequestros
É uma evidência que desde o primeiro momento, logo em 2002, a Venezuela saltou para a lista negra dos Estados Unidos. Porque é que um país não pode ser livre e soberano nas suas decisões? Porque é que se diz que o chavismo levou a economia ao descalabro se o Ocidente fez tudo para asfixiar o país?
Quando passam cinco dias do brutal sequestro do Presidente da Venezuela e da sua mulher, começamos já a conhecer melhor o que terá acontecido no meio da nuvem espessa da desinformação. Foi tudo menos uma «operação limpa» como afirmou Donald Trump. Nicolás Maduro e Cília Flores ficaram feridos durante a agressão militar e cerca de meia centena de militares venezuelanos e cubanos morreram nos combates.
«Pobre México». Há pouco mais de um século, o ditador mexicano Porfirio Díaz, derrubado mais tarde pela revolução liderada por Francisco Madero, ‘Pancho’ Villa e Emiliano Zapata, afirmava que seu país estava «tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos». Um pouco mais longe, mas não o suficiente, Simón Bolívar afirmara que os Estados Unidos pareciam destinados pela «providência» a contaminar o continente americano «de misérias em nome da liberdade». Filho de bascos, amamentado e criado por uma mulher negra, que o inspirou a combater a escravatura, o líder da independência da Venezuela comandou a única vez que o exército daquele país atravessou as suas fronteiras não para ocupar, mas para libertar outros países.
Toda a história da Venezuela é uma sucessão de guerras pela liberdade. As revoltas dos indígenas contra o colonialismo espanhol, as insurreições de escravos, a guerra pela independência e, posteriormente, a batalha por «tierra e hombres libres» de Ezequiel Zamora. Nesta última, esteve um índio guariquenho chamado Pedro Pérez Pérez, bisavô de Hugo Chávez, cujo filho, Pedro Pérez Delgado, conhecido como Maisanta, foi guerrilheiro na luta contra a ditadura de Vicente Gómez.
Se a violência é a parteira da história, a Venezuela esteve sempre prenha. Quando o escritor Gabriel García Márquez tentou dar voz à realidade extrema da América caribenha, explicou que o realismo mágico nunca tratou de inventar nada porque estava lá tudo. Se alguém contasse aos motoristas do Metrobus de Caracas, há mais de 30 anos, na pausa para o café, que um deles seria presidente da Venezuela, seria razão para chacota. Alguns achariam uma impossibilidade, outros um disparate.
Apesar de a Venezuela ter na sua gestão alguns dos melhores quadros formados em economia num país a transbordar de petróleo, a população vivia na miséria. Desde 1958, depois da queda da ditadura, os três partidos do sistema – Acção Democrática, COPEI e URD – pactam outra ditadura: partilhar o poder político e impedir os comunistas de chegar ao governo. É nesse contexto que, em 1976, Jorge Antonio Rodríguez, dirigente da Liga Socialista, é acusado de participar no sequestro do norte-americano William Niehous, apontado como agente da CIA no país. Detido e levado para os calabouços da polícia política, foi barbaramente torturado até à morte. Para trás, deixou dois filhos pequenos: Delcy Rodríguez e Jorge Rodríguez.
Um ano depois do chocante assassinato, um adolescente de Caracas toma a decisão de entrar na mesma organização. Alto e corpulento, Nicolás é escolhido em 1983 para ser guarda-costas do histórico José Vicente Rangel, então candidato presidencial apoiado por vários partidos de esquerda, incluindo os comunistas. Nos anos seguintes, frequenta cursos políticos em Havana e começa a trabalhar como motorista do Metrobus, na capital venezuelana, onde se começa a destacar como sindicalista.
Poucos meses depois da insurreição militar liderada por Hugo Chávez em 1992, já politicamente experimentado, participa num novo levantamento contra o governo ajudando civis e militares a atravessar em segredo os túneis do metro de Caracas e por ali foge para não ser capturado pela polícia. No ano seguinte, conhece aquela que viria a ser a grande referência da sua vida. É em 1994 que Nicolás Maduro abraça pela primeira vez Hugo Chávez numa visita à prisão e é nesse ano que conhece a sua futura mulher, advogada do então futuro presidente da Venezuela. Mas Cília Flores não estava destinada a ser primeira dama. Antes tinha sido presidente do parlamento, Procuradora Geral da República e líder de bancada do seu partido até à inesperada doença e morte de Hugo Chávez e até à eleição de Nicolás Maduro, com quem só se viria a casar nesse mesmo ano, em 2013.
O sequestro do século
Durante o último semestre, a aviação norte-americana dedicou-se a executar extrajudicialmente tripulantes de embarcações ao largo da Venezuela e da Colômbia. Calcula-se que mais de 100 pessoas tenham morrido desta forma. Assassinados sem direito a qualquer julgamento, boa parte do mundo olhou de forma compassiva para estes actos de terrorismo de Estado. Mais tarde, Donald Trump anunciou um bloqueio naval para apoderar-se de petroleiros de vários países que fazem comércio com a Venezuela. Uma forma de pirataria moderna que tampouco teve uma resposta contundente dos países europeus. De acordo com a Carta das Nações Unidas, a única excepção à agressão entre países é em caso de auto-defesa. Neste caso, estamos a falar de sanções e de uma agressão fora do marco do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
No caso da União Europeia, só começou a haver inquietação com as provas de força dos Estados Unidos contra a Venezuela quando Donald Trump voltou a ameaçar a integridade territorial da Gronelândia. O sequestro de um chefe de Estado e da sua mulher, feridos durante o ataque das forças especiais norte-americanas, não comoveu demasiado os responsáveis políticos europeus, mais entusiasmados com a ideia do fim da revolução bolivariana e com um eventual acesso a petróleo mais barato.
Na agressão dos Estados Unidos, sem qualquer ponta de legalidade, Rosa González, de 80 anos, morta pelas bombas norte-americanas em La Guaira, é o rosto da barbárie. Dezenas de civis foram mortos e muitas casas foram destruídas. Um centro de armazenamento de material para hemodiálise que servia 9 mil utentes ficou em escombros. O Instituto Venezuelano de Investigação Científica foi também alvo dos bombardeamentos.
A «operação limpa» e «fácil» de que Donald Trump falou resultou em mais de meia centena de mortes entre os soldados venezuelanos e cubanos. Independentemente das apreciações sobre a possibilidade de algumas traições, que serão certas, a verdade é que houve combates nos arredores do lugar onde estava Nicolás Maduro e Cília Flores. Vários soldados norte-americanos ficaram feridos, um helicóptero foi atingido.
Venezuela sob assédio desde 2002
Em Abril de 2002, logo no terceiro ano do primeiro mandato de Hugo Chávez, um sector das forças armadas, instigado pela oligarquia e pelos Estados Unidos, tenta derrubar o então presidente. Nessas quase 48 horas, foi o capitão Diosdado Cabello, então vice-presidente, que assumiu a presidência interina, enquanto militares leais ao governo procuravam resgatar Hugo Chávez.
Entre Dezembro desse mesmo ano e Fevereiro do ano seguinte, a oposição aposta numa paralisação na produção da empresa estatal petrolífera PDVSA, o que gera graves problemas no país.
Já depois da morte de Hugo Chávez, em 2013, quando Nicolás Maduro ganha pela primeira vez as eleições, a oposição promove vários actos de violência. Dois anos depois, Barack Obama, assina uma ordem executiva na qual declara que o governo venezuelano representa uma «ameaça inusual e extraordinária para a segurança nacional» dos Estados Unidos. Como consequência dessa decisão, foram bloqueados os primeiros activos nos Estados Unidos de altos funcionários venezuelanos.
Durante o primeiro mandato de Donald Trump, tanto o Citibank como o JPMorgan fecharam contas venezuelanas, o que fez disparar o risco de endividamento do país, e em 2017 proibiu-se a compra de dívida venezuelana e a distribuição de dividendos da CITGO, filial norte-americana da PDVSA. Simultaneamente, a Euroclear congelou 1650 milhões de dólares destinados à compra de alimentos.
No dia 4 de Agosto de 2018, um ataque com drones durante uma cerimónia onde discursava Nicolás Maduro provoca sete feridos, naquilo a que o governo considerou ser uma tentativa de assassinato do presidente.
Em 2019, há uma nova arremetida contra a institucionalidade venezuelana. A oposição declara não reconhecer Nicolás Maduro e Juan Guaidó auto-proclama-se presidente da Venezuela sem qualquer amparo do Supremo Tribunal de Justiça. O mundo divide-se. O Ocidente reconhece Guaidó e uma parte do Sul Global reconhece Maduro. Ao longo do tempo, começa a ficar claro que o opositor não tem qualquer poder no Estado venezuelano e é Nicolás Maduro que escolhe os representantes do país nas Nações Unidas mostrando que é, de facto, a autoridade soberana da Venezuela.
Contudo, a 30 de Abril desse ano, a oposição tenta um novo golpe violento que acaba derrotado e um saldo de quatro mortos e mais de 200 feridos. O opositor Leopoldo López foge da prisão domiciliária e esconde-se na embaixada espanhola. Alguns militares desertam mas acabam presos.
Também em 2019, Portugal congela então o dinheiro venezuelano no Novo Banco destinado à compra de vacinas e equipamentos médicos para a saúde pública na Venezuela. Donald Trump endurece as sanções e impede qualquer empresa ou país de fazer trocas comerciais com o país sul-americano. No total, a Venezuela está debaixo de cerca de 900 sanções de diferentes países. O Ocidente asfixia deliberadamente a economia venezuelana e ao mesmo tempo diz que o governo de Maduro está a levar o país ao precipício. Isto provocou o desabastecimento, uma explosão da inflação, a redução do investimento público, a deterioração dos serviços públicos, incluindo o sector da saúde, conduzindo à emigração de milhões de venezuelanos.
Em 2020, um grupo de mercenários norte-americanos desembarca na costa venezuelana mas são capturados. Não é a primeira vez que combatentes pagos tentam entrar na Venezuela por mar ou através da fronteira colombiana. Nesse mesmo ano, Alex Saab, um empresário mandatado por Nicolás Maduro para estabelecer relações comerciais com outros países e procurar vias para romper as sanções e o bloqueio, é detido enquanto fazia escala em Cabo Verde a caminho do Irão. Preso em Santiago a pedido dos Estados Unidos, acabou extraditado para Miami. Dois anos depois, seria libertado por Joe Biden num processo de troca com os mercenários que tinham desembarcado na Venezuela. Hoje, é ministro da Indústria.
Recuperação económica
Apesar de todos os esforços para asfixiar a Venezuela e levar o seu povo ao desespero, a economia começou a dar sinais de recuperação nos últimos cinco anos. Em 2025, foi o país que mais cresceu na América Latina. De acordo com as estimativas do Banco Central da Venezuela (BCV), compiladas pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o PIB cresceu 6,6% em relação ao ano anterior no segundo trimestre de 2025, impulsionado por um avanço de 12,3% no setor petrolífero e de 4,4% no setor não petrolífero. O crescimento acumulado no primeiro semestre atingiu 7,7%, após uma expansão de 9,3% no primeiro trimestre. Para todo o ano de 2025, projetava-se um crescimento de 5,8%, com uma expansão de 13% no setor petrolífero e de 3,4% no restante da economia.
Para compensar o desequilíbrio salarial devido à desvalorização da moeda face ao dólar, o governo passou a pagar parte dos salários dos funcionários públicos num valor equivalente ao dólar para evitar a desvalorização dos rendimentos dos trabalhadores.
Independentemente da leitura que se possa fazer da chamada revolução bolivariana e do governo venezuelano, é uma evidência que desde o primeiro momento, logo em 2002, a Venezuela saltou para a lista negra dos Estados Unidos. Porque é que um país não pode ser livre e soberano nas suas decisões? Porque é que se diz que o chavismo levou a economia ao descalabro se o Ocidente fez tudo para asfixiar o país? E, por último, porque é que os países que foram tão céleres a condenar outras intervenções militares e a enviar ajuda não o fazem agora?
[Artigo tirado do sitio web portugués Abril Abril, do 8 xaneiro de 2025]