Brasil: O assalto ao poder de um bando de aventureiros

Emir Sader -

Privatização de tudo o que puder, sem limite, sem pudor, liquidação do patrimônio publico, entregue ao mercado e aos grandes capitais privados nacionais e internacionais. Liquidação do Estado brasileiro

 Pouco tempo passou para se fosse vendo o que é o grupo que assaltou o governo, através do pretexto de um golpe. Não é preciso definir a Temer, em particular, embora sua trajetória seja, por si só, muito significativa. Mas são um bando de Temers, muito parecidos, se troca um pelo outro e dá igual.

 O Brasil vinha de uma recuperação impressionante de ser o pais mais desigual do continente mais desigual do mundo. De ser um pais com imagem degradada no mundo, pela subserviência, pelo rebaixamento do seu perfil, pela sua renuncia a ter um papel no mundo.

 A partir de 2003, pelo fracasso da aventura neoliberal, que quis encaixar o Brasil nos estreitos marcos do mercado. Da experiência de mais de uma década, desde a eleição do Collor, o pais saiu menor, mais desigual, mais anônimo no mundo.

 A vitória do Lula representou o resgate do Brasil como pais que enfrenta seu principal problema: a desigualdade e seus corolários: a pobreza, a miséria, a exclusão social. Pela primeira vez grande parte da sua população foi contemplada com seus direitos elementares, antes de tudo o de escapar da fome, além de ter emprego minimamente digno, ter acesso a bens fundamentais, ter escola para seus filhos, ter futuro para eles, ter acesso a uma casa. E ser reconhecidos como cidadãos.

 Ao mesmo tempo, a imagem do Brasil no mundo nunca foi tão reconhecida, pelo combate à fome, mas também pelo incentivo aos processos de integração regional, pela soberania da sua política externa, pela preocupação pelos problemas do mundo. A imagem internacional do Lula foi expressão disso.

 A direita ficou muito deslocada com tudo isso. Primeiro achou que o Lula não duraria muito, tentou derruba-lo com o “mensalão”, não deu, Lula se reelegeu, ai a direita teve que levar em conta que algo novo acontecia no Brasil com as politicas sociais do governo. Começou a levar a serio o Bolsa Familia, a olhar para a nova cara do nordeste, e seu conta que tinha perdido o pe’ do pais real.

 Mas tentava ganhar eleições com a retomada do modelo do governo FHC, com o Serra em 2002, o Alckmin em 2006, o Serra de novo em 2010, o Aécio em 2014. Se valia do monopólio privado da mídia para tentar desvirtuar os temas centrais do Brasil, mas disputava nas eleições. Tanto Aécio como Marina, apresentavam programas de restauração neoliberal e com isso foram derrotados.

 Mas a aventura atual é outra coisa. Foi levada a cabo por uma aliança entre os perdedores – partidos, mídia, grande empresariado – e o PMDB, partido aventureiro, que esteve com todos os governos até hoje, sem ideologia, com apego aos cargos, disponível para ser liderado por outras forças. Agora, valendo-se das dificuldades de derrubada por outra forma da Dilma, usando o cargo para o qual o Temer foi eleito como vice com um programa radicalmente oposto, se oferece para uma aventura de assalto golpista ao governo e desmonte de tudo o que de positivo foi construído desde 2003.

 Privatização de tudo o que puder, sem limite, sem pudor, liquidação do patrimônio publico, entregue ao mercado e aos grandes capitais privados nacionais e internacionais. Liquidação do Estado brasileiro.

 Destruição das políticas sociais que permitiram o Brasil diminuir a fome, a miséria e a desigualdade que, se não for brecada, levará rapidamente o pais de volta ao Mapa da Fome no mundo. Ataque aos direitos dos trabalhadores, aos sindicatos, às centrais, buscar aumentar a rentabilidade do capital às custas da superexploração dos trabalhadores.

 Um projeto aventureiro levado a cabo por uma gangue de políticos corruptos, tendo à cabeça um politico sem consistência alguma, fugindo dos processos de corrupção que o perseguem e hoje fugindo do povo, que implacavelmente o busca. Um presidente interino maldito, fustigado pelo repúdio popular, enquanto, grotescamente, o Congresso prossegue no impeachment de uma presidenta aclamada pelo povo.

 O Fora Temer une hoje o pais, que não aceita essa aventura contra a democracia, contra o povo e contra o Brasil. Uma aventura que, se não for brecada, ameaça levar de roldão o que de melhor o pais construiu ao longo dos últimos anos – democracia e direitos para todos – e nos fazer retroceder ao que de pior o passado nos trouxe – ditadura e neoliberalismo.

 

[Artigo tirado do sitio web brasileiro ‘Brasil 247’, do 24 de maio de 2016]

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